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História do Bairro

São Paulo é a expressão do espírito yankee amenizado e perfumado pela graça do gosto italiano.

Rui Barbosa
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Caminhando para o final do século 19, São Paulo deixava para trás o seu status de província. Os serviços de gás iriam substituir as lâmpadas a óleo existentes, a expansão da cultura cafeeira fez com que o porto de Santos exigisse uma ferrovia que ligasse Santos ao interior paulista que foi construída pelos ingleses e escoceses, em 1867, a abertura do Curso de Direito de Faculdade São Francisco, que foi, juntamente, com a de Olinda, a primeira universidade brasileira, e, sobretudo, o clima, atraíam os brasileiros de outros estados e os estrangeiros. Vinham, em sua maioria, como trabalhadores, uma vez que alguns países da Europa, então pobres, não pareciam prometer futuro algum. Aqui se instalavam tanto na capital quanto no interior do Estado. Já os brasileiros de outros estados, e do interior, vinham em busca de estudo para os filhos.
São Paulo, crescia rápido e com um estilo arquitetônico desordenado, tanto nos edifícios públicos como nas moradias. Alcântara Machado chamou a isso de “desastre estético-urbano”. São Paulo respondia à pluralidade dos seus habitantes. E nunca mais teria uma população homogênea.
Os engenheiros responsáveis pela construção da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, a então São Paulo Railway, pediram aos monges beneditinos para usar parte do terreno do Mosteiro de São Bento, para ali construir um campo de golfe, no que foram atendidos. Só que a cidade se expandia em direção ao rio Tietê, e isso obrigou a transferência do campo para um outro local. Então, em 1901, lá se foi o campo para uma área próxima à confluência das avenidas Paulista e Brigadeiro Luis Antonio. Esse local era o Morro dos Ingleses, cuja denominação permanece até hoje.
Já os escravos libertos, que outrora se escondiam pelos arredores do triangulo central da cidade, também começaram a se estabelecer no que é hoje a Bela Vista. A economia paulistana já se mostrava a céu aberto: o comércio, e a indústria. E também a chamada economia subterrânea: os ambulantes, os carroceiros, os amoladores de facas, os vendedores de leite de cabra, de doces, e toda sorte de comércio que se propagava paralelamente ao que poderia ser chamado de oficial. O transporte, por exemplo, dependia muito dos carroceiros. Quem não recebia um salário oficial freqüentemente era confundido com um “vagabundo”. Talvez o apreço pelas letras, papéis, e reconhecimento das autoridades, sejam elas quais forem, tenham contribuído para uma maior marginalização, o que fazia com que esse pequeno comércio fosse freqüentemente perseguido.
Mas a cidade que era cada vez mais ampliada, em terrenos por vezes abruptos, e de difícil acesso na época, pouco se importava. Já havia incorporado as festas religiosas de rua e também as festas dos escravos. Faltava então que os europeus também fizessem as suas festas de rua. E isso não demorou nada a acontecer.
Herdeiros de uma magnífica cozinha, os imigrante italianos, tanto os de baixa renda quanto os de alta renda, voltaram-se para a comida. As fábricas de macarrão apareceram, e as cantinas da Bela Vista também. A semelhança das línguas italiana e portuguesa, ambas com a mesma raiz latina, fez com que, mais do que outros imigrantes, os italianos se fixassem cada vez mais, e cada vez mais juntos. Não demorou para que surgisse nas artes, o italiano típico da Bela Vista e Bexiga. Juó Bananére começou a escrever poemas satíricos e ousados para a época, que identificavam a nova maneira de se expressar dos ítalo-paulistanos. O escritor Alcântara Machado acabou se tornando o mais perfeito retratista da vida dos descendentes dos italianos quando lançou Brás, Bexiga e Barra Funda. Adoniran Barbosa musicou o jeito italiano de falar. Que mostravam que o entrosamento era e seria, no futuro, e o futuro seria sempre o amanhã, e não uma coisa longínqua.
Logo vieram as festas e as igrejas: Nossa senhora da Achiropita, a santa que um imigrante italiano trouxera e em torno da qual se reuniam as famílias para rezar, e que logo depois, com o aumento do número dos seus devotos, tornou-se necessária a construção de uma igreja. Já no fim dos anos 80s a Bela Vista era um dos importantes pontos turísticos de São Paulo. Com suas cantinas italianas, seus teatros, suas tradições.
 
Texto: Mécia Rodrigues
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