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Personagens do Bairro
Ronoel Simões
Texto: Marcelo Lanzoni
Fotos: Flávio Guarniero



Ronoel Simões - Ciudadano Honorífico de Misiones

O Belo Violão da Bela Vista

Quem anda hoje pelas ruas do Bairro da Bela Vista em São Paulo, nem imagina, ou dificilmente sabe, que num daqueles tradicionais e discretos sobrados da região, mora uma lenda viva da música. Seu nome, Ronoel Simões, violonista brasileiro que dedicou boa parte de seus 90 anos em aperfeiçoar, ensinar, difundir e cultuar a arte do violão clássico.
Nascido no ano de 1919, em Araraquara, interior do Estado de São Paulo, mudou-se para a capital paulista ainda bem jovem e aqui, formou-se na arte do violão. Arte que se transformou no ofício de sua vida e na sua grande paixão. Anos mais tarde, passou ele mesmo a dar aulas, ajudando a formar muitos outros violonistas. Muitos deles, hoje, renomados e respeitados.
Mas além de talentoso músico e dedicado mestre, Ronoel Simões, ou “Professor Ronoel”, como é carinhosamente chamado por aqueles que foram seus alunos, é também dono e guardião de um verdadeiro tesouro cultural. Em sua casa ele armazena um sem fim de partituras, discos, CD`s, DVDs e literatura sobre violão. Um acervo enorme, montado pouco a pouco, com muita paciência, ao longo de uma vida inteira de dedicação e amor a música, em particular, ao violão. Entre essas relíquias, há registros musicais que talvez não existam mais em lugar algum, exceto ali, como por exemplo, partituras originais que o “Prof. Ronoel”recebeu de presente das mãos do compositor e maestro Heitor Villa Lobos. Há também o disco com composições inéditas, gravado com exclusividade, que ele ganhou do violonista e também compositor, Aníbal Augusto Sardinha, o “Garoto”. Ambos amigos pessoais de Ronoel Simões, assim como muitos outros nomes talentosos e consagrados da música nacional e internacional, que formam uma galeria e tanto. Mas apesar disso tudo, o “Prof. Ronoel” não esboça a mínima vaidade. Pelo contrário, é um homem simples, bem humorado, extremamente agradável e atencioso.
Foi essa personalidade incrível que o “Guia Bela Vista” teve o prazer e o privilégio de entrevistar. O resultado da conversa você acompanha a seguir...

------ Entrevista ------

G.B.V. Desde que idade o sr. toca violão e como surgiu o interesse por esse instrumento?

Ronoel Simões - Eu começei a estudar violão em 1941. Queria aprender música e escolhi o violão porque naquela época era o instrumento mais barato. Foi assim que tudo começou.

G.B.V. Quem foi seu professor?

Ronoel Simões - O meu único professor foi Atílio Bernardini. Ele me foi indicado por colegas, como sendo o melhor daquela época em São Paulo. Então decidi estudar com ele. Isso durou de 1941 até 1947.

G.B.V. Qual estilo de música que o sr. adotou para si?

Ronoel Simões - O Clássico e o popular, os dois estilos. Mas sempre com a visão do violão sério, nada de palheta, nem de violão de 7 cordas, nada disso. Violão de 6 cordas, a rigor, tocado direto nos dedos, é assim que tem que ser.

G.B.V. O sr. permaneceu nessa linha a vida toda?

Ronoel Simões - Sim, toquei assim a vida toda. Para mim essa é a única forma de violão que interessa, violão sério, sem artifícios.

G.B.V. O sr. é compositor ou intérprete?

Ronoel Simões - Eu sempre fui intérprete. Nunca compus nada.

G.B.V. Quando o sr. começou da dar aulas e como eram essas aulas?

Ronoel Simões - Eu comecei a lecionar em 1953 e permaneci nesse trabalho até 1988, foram 35 anos de aulas. Eram aulas individuais, com duração de 1 hora.

G.B.V. Dos seus alunos, algum deles se tornou famoso?

Ronoel Simões - Sim, alguns se saíram bem sim. Tem um que era muito bom, mas não quis ser profissional de violão porque tornou-se avidor e segundo ele mesmo, ganhava melhor como aviador. Tem outro, Carlos Iafelice, que também abriu conservatório aqui em São Paulo e ainda ensina violão até hoje.

G.B.V. Qual era sua profissão antes de ser músico?

Ronoel Simões - Eu sempre trabalhei com violão a vida toda. Mas quando eu era jovem, também trabalhava com meu pai. Ele tinha um empório e a gente vendia cigarro, pinga, arroz, artigos de armarinho, essas coisas. Mas quando eu comecei a dar aula em 1953, aí tive que parar com a vendinha.

G.B.V. O Sr. Chegou a integrar alguma orquestra ou grupo musical?

Ronoel Simões - Sim, mas tudo em caráter popular. Participei de vários conjutos, vários trios e quartetos de violão, mas também toquei solo muitas vezes.

G.B.V. Ao longo de sua carreira que personalidades famosas da música nacional e internacional o sr. conheceu?

Ronoel Simões - Conheci muita gente, muitos violonistas e músicos em geral. Na música nacional eu conheci Villa Lobos, Guilermando Reis, Anibal Augusto Sardinha (Garoto), entre outros. “Garoto” até gravou algumas coisas particulares para mim em discos de acetato, coisas ainda inéditas, era amigo dessa gente toda. Eu mantinha um programa de rádio, na “Rádio Gazeta”, durante a década 60, onde eu difundia o trabalho de vários artistas do violão entre eles o “Garoto”. Muito desse material acabou ficando comigo. Da música internacional também conheci muita gente. Alguns deles me visitavam bastante, acabávamos ficando amigos e tocávamos juntos. Esse é o caso da violonista ameriacana Alice Artzt, que toca até hoje. Ela mora em Nova York, mas estava sempre aqui comigo, tocamos juntos muitas vezes. Ela sempre manda material pra mim. Também conheci músicos de outros países como Canadá e Argentina que tocaram comigo.

G.B.V. O sr. era amigo próximo de vila lobos?

Ronoel Simões - Sim eu me dava muito bem com ele. Em 1948 começou no rádio um concurso de violão. Era o “Concurso Internacional de Violão Vila Lobos” e a esposa dele, Dna. Mindinha, me colocou como jurado desse programa. Isso durou uns dois anos, de 1948 a 1950 mais ou menos. Era um programa muito conhecido e divulgado. A partir daí estreitei minhas relações com Villa Lobos. Ele também gravou algumas coisas em disco pra mim, entre elas o “Choro Nº 1” que eu conservo com carinho até hoje, uma raridade pra mim.

G.B.V. Dizem por aí que o sr. possui uma coleção invejável de discos e partituras clássicas de violão. Quando e como, começou sua coleção?

Ronoel Simões - Sim, minha coleção é bem grande sim. Eu a comecei no mesmo ano em que comecei a estudar violão, em 1941. Eu vi que uma coisa tinha ligação com a outra e além disso me servia como material de estudo. Então fui comprando tudo o que achava interessante e que se relacionava com violão e a partir daí não parei mais.

G.B.V. O Sr. Já pensou qual destino dará a essa coleção no futuro?

Ronoel Simões: Vou deixar para minha esposa. Muita gente já quis comprar mas eu não vendi e não vou vender pra ninguém. Nunca pus preço e nem saberia dizer a você quanto vale. Há pouco tempo atrás veio aqui uma senhora do museu da imagem e do som, “Dona Graça”, se não me engano ela é diretora do museu. Veio ela e o secretário dela. Eles propuseram a venda da minha coleção. Eu apenas disse a ela que estava comprando e não vendendo e perguntei se ela tinha algum material para eu comprar (risos).

G.B.V. O sr. também realiza sessões de violão aos sábados á noite em sua casa não é? Desde quando o sr. faz isso?

Ronoel Simões: Sim, desde que eu comecei a estudar violão, junto com os amigos, que eu abro minha casa para os saraus e continuo até hoje com isso. Até pessoas de outros países ja vieram tocar aqui aos sábados. Mas atualmente não tem vindo mais muita gente não.

G.B.V. Esses saraus são abertos ao público? Quais são os estilos tocados aqui?

Ronoel Simões: Sim é aberto ao público, aos sábados, entre 20 e 22 horas mais ou menos. São tocadas músicas clássicas e populares, mas o que predomina é mais o clássico, o estilo erudito.

G.B.V. Quem o sr. Destacaria hoje em dia como grande violonista?

Ronoel Simões: Tem muita gente boa aí, alguns ficaram famosos, como Carlos Ferreira Pinto Filho, que é muito talentoso. Seu repertório inclui várias obras clássicas e populares, mas sempre predominando o clássico. Mas existem outros violonistas excelentes também, como Thomas, Geraldo Ribeiro e Edson Lopes. São esses que eu considero os melhores hoje em dia.

G.B.V. Quanto tempo é necessário para se estudar violão da maneira correta? Esse período é o mesmo no Brasil e no exterior?

Ronoel Simões: Mais ou menos 7 anos de estudos diários, tanto aqui como no exterior. Na argentina, por exemplo, existe uma coleção de métodos para violão, chamada “Arenas”. São sete volumes. Cada volume é um ano. Depois desse 7 anos tem o aperfeiçoamento. Para falar bem a verdade, o estudo de violão nunca chega ao fim, é um processo de constante aperfeiçoamento.

G.B.V. O Sr. Estudou no exterior?

Ronoel Simões: Não, nunca. Meu estudo sempre foi aqui no Brasil. Aconteceu o contrário. Teve gente de fora que veio estudar aqui comigo. Mas eu nunca fui estudar violão em outro país.

G.B.V. O sr. continua tocando violão?

Ronoel Simões: Não, parei totalmente. Desde 1984 que não toco mais. Percebi que minha dificultade com o movimento dos dedos só estava aumentando e que daquele ponto em diante já não poderia mais dispor da agilidade necessária, nas mãos, para poder prosseguir com o treinamento. Mas mesmo assim eu ainda continuo dentro da música, ainda cultivo o violão, tenho muitos discos, CDs, DVDs com os grandes violonistas, daqui e do exterior, e sempre que posso estou em contato com músicos.

G.B.V. O sr. acha que os jovens de hoje têm interesse pela música clássica?

Ronoel Simões: Pouco, muito pouco. Ultimamente o violão clássico vem sofrendo um desinteresse geral. Não há mais aquele entusiasmo. As pessoas em si não estão ligando muito para esse estilo de violão. Até a década de 70 o violão clássico era mais difundido. Hoje está em decadência. Há pouca gente que se dedica a música erudita hoje em dia, infelismente.

G.B.V. Que conselho o Sr. Daria aos jovens de hoje que pretendem estudar violão?

Ronoel Simões: Eu aconselho a estudar o violão erudito, com disciplina, classe e verdadeira dedicação. Busquem enriquecer seu repertório com compositores clássicos de qualidade como Bach, Bethoven, Debussy, Chopin, Schumann, entre outros, e sigam sempre a partitura original, nada de inventar ou fazer arranjos. Escolham obras desafiadoras, como por exemplo, a “Chacona de Bach”, que pode ser tocada em violão. É uma peça muito difícil, tem 13 minutos de duração e exige bastante treino. Mas é muita bonita e quando você consegue tocá-la, é gratificante. No final, só vale o que feito com perfeição.




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