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Entrevista
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G.B.V.
Desde que idade o sr. toca violão e como surgiu o
interesse por esse instrumento?
Ronoel
Simões - Eu começei a estudar violão
em 1941. Queria aprender música e escolhi o violão
porque naquela época era o instrumento mais barato.
Foi assim que tudo começou.
G.B.V.
Quem foi seu professor?
Ronoel
Simões - O meu único professor foi
Atílio Bernardini. Ele me foi indicado por colegas,
como sendo o melhor daquela época em São Paulo.
Então decidi estudar com ele. Isso durou de 1941
até 1947.
G.B.V.
Qual estilo de música que o sr. adotou para si?
Ronoel
Simões - O Clássico e o popular,
os dois estilos. Mas sempre com a visão do violão
sério, nada de palheta, nem de violão de 7
cordas, nada disso. Violão de 6 cordas, a rigor,
tocado direto nos dedos, é assim que tem que ser.
G.B.V.
O sr. permaneceu nessa linha a vida toda?
Ronoel
Simões - Sim, toquei assim a vida toda.
Para mim essa é a única forma de violão
que interessa, violão sério, sem artifícios.
G.B.V.
O sr. é compositor ou intérprete?
Ronoel
Simões - Eu sempre fui intérprete.
Nunca compus nada.
G.B.V.
Quando o sr. começou da dar aulas e como eram essas
aulas?
Ronoel
Simões - Eu comecei a lecionar em 1953 e
permaneci nesse trabalho até 1988, foram 35 anos
de aulas. Eram aulas individuais, com duração
de 1 hora.
G.B.V.
Dos seus alunos, algum deles se tornou famoso?
Ronoel
Simões - Sim, alguns se saíram bem
sim. Tem um que era muito bom, mas não quis ser profissional
de violão porque tornou-se avidor e segundo ele mesmo,
ganhava melhor como aviador. Tem outro, Carlos Iafelice,
que também abriu conservatório aqui em São
Paulo e ainda ensina violão até hoje.
G.B.V.
Qual era sua profissão antes de ser músico?
Ronoel
Simões - Eu sempre trabalhei com violão
a vida toda. Mas quando eu era jovem, também trabalhava
com meu pai. Ele tinha um empório e a gente vendia
cigarro, pinga, arroz, artigos de armarinho, essas coisas.
Mas quando eu comecei a dar aula em 1953, aí tive
que parar com a vendinha.
G.B.V.
O Sr. Chegou a integrar alguma orquestra ou grupo musical?
Ronoel
Simões - Sim, mas tudo em caráter
popular. Participei de vários conjutos, vários
trios e quartetos de violão, mas também toquei
solo muitas vezes.
G.B.V.
Ao longo de sua carreira que personalidades famosas da música
nacional e internacional o sr. conheceu?
Ronoel
Simões - Conheci muita gente, muitos violonistas
e músicos em geral. Na música nacional eu
conheci Villa Lobos, Guilermando Reis, Anibal Augusto Sardinha
(Garoto), entre outros. “Garoto” até
gravou algumas coisas particulares para mim em discos de
acetato, coisas ainda inéditas, era amigo dessa gente
toda. Eu mantinha um programa de rádio, na “Rádio
Gazeta”, durante a década 60, onde eu difundia
o trabalho de vários artistas do violão entre
eles o “Garoto”. Muito desse material acabou
ficando comigo. Da música internacional também
conheci muita gente. Alguns deles me visitavam bastante,
acabávamos ficando amigos e tocávamos juntos.
Esse é o caso da violonista ameriacana Alice Artzt,
que toca até hoje. Ela mora em Nova York, mas estava
sempre aqui comigo, tocamos juntos muitas vezes. Ela sempre
manda material pra mim. Também conheci músicos
de outros países como Canadá e Argentina que
tocaram comigo.
G.B.V.
O sr. era amigo próximo de vila lobos?
Ronoel
Simões - Sim eu me dava muito bem com ele.
Em 1948 começou no rádio um concurso de violão.
Era o “Concurso Internacional de Violão Vila
Lobos” e a esposa dele, Dna. Mindinha, me colocou
como jurado desse programa. Isso durou uns dois anos, de
1948 a 1950 mais ou menos. Era um programa muito conhecido
e divulgado. A partir daí estreitei minhas relações
com Villa Lobos. Ele também gravou algumas coisas
em disco pra mim, entre elas o “Choro Nº 1”
que eu conservo com carinho até hoje, uma raridade
pra mim.
G.B.V.
Dizem por aí que o sr. possui uma coleção
invejável de discos e partituras clássicas
de violão. Quando e como, começou sua coleção?
Ronoel
Simões - Sim, minha coleção
é bem grande sim. Eu a comecei no mesmo ano em que
comecei a estudar violão, em 1941. Eu vi que uma
coisa tinha ligação com a outra e além
disso me servia como material de estudo. Então fui
comprando tudo o que achava interessante e que se relacionava
com violão e a partir daí não parei
mais.
G.B.V.
O Sr. Já pensou qual destino dará a essa coleção
no futuro?
Ronoel
Simões: Vou deixar para minha esposa. Muita gente
já quis comprar mas eu não vendi e não
vou vender pra ninguém. Nunca pus preço e
nem saberia dizer a você quanto vale. Há pouco
tempo atrás veio aqui uma senhora do museu da imagem
e do som, “Dona Graça”, se não
me engano ela é diretora do museu. Veio ela e o secretário
dela. Eles propuseram a venda da minha coleção.
Eu apenas disse a ela que estava comprando e não
vendendo e perguntei se ela tinha algum material para eu
comprar (risos).
G.B.V.
O sr. também realiza sessões de violão
aos sábados á noite em sua casa não
é? Desde quando o sr. faz isso?
Ronoel
Simões: Sim, desde que eu comecei a estudar violão,
junto com os amigos, que eu abro minha casa para os saraus
e continuo até hoje com isso. Até pessoas
de outros países ja vieram tocar aqui aos sábados.
Mas atualmente não tem vindo mais muita gente não.
G.B.V.
Esses saraus são abertos ao público? Quais
são os estilos tocados aqui?
Ronoel
Simões: Sim é aberto ao público, aos
sábados, entre 20 e 22 horas mais ou menos. São
tocadas músicas clássicas e populares, mas
o que predomina é mais o clássico, o estilo
erudito.
G.B.V.
Quem o sr. Destacaria hoje em dia como grande violonista?
Ronoel
Simões: Tem muita gente boa aí, alguns ficaram
famosos, como Carlos Ferreira Pinto Filho, que é
muito talentoso. Seu repertório inclui várias
obras clássicas e populares, mas sempre predominando
o clássico. Mas existem outros violonistas excelentes
também, como Thomas, Geraldo Ribeiro e Edson Lopes.
São esses que eu considero os melhores hoje em dia.
G.B.V.
Quanto tempo é necessário para se estudar
violão da maneira correta? Esse período é
o mesmo no Brasil e no exterior?
Ronoel
Simões: Mais ou menos 7 anos de estudos diários,
tanto aqui como no exterior. Na argentina, por exemplo,
existe uma coleção de métodos para
violão, chamada “Arenas”. São
sete volumes. Cada volume é um ano. Depois desse
7 anos tem o aperfeiçoamento. Para falar bem a verdade,
o estudo de violão nunca chega ao fim, é um
processo de constante aperfeiçoamento.
G.B.V.
O Sr. Estudou no exterior?
Ronoel
Simões: Não, nunca. Meu estudo sempre foi
aqui no Brasil. Aconteceu o contrário. Teve gente
de fora que veio estudar aqui comigo. Mas eu nunca fui estudar
violão em outro país.
G.B.V.
O sr. continua tocando violão?
Ronoel
Simões: Não, parei totalmente. Desde 1984
que não toco mais. Percebi que minha dificultade
com o movimento dos dedos só estava aumentando e
que daquele ponto em diante já não poderia
mais dispor da agilidade necessária, nas mãos,
para poder prosseguir com o treinamento. Mas mesmo assim
eu ainda continuo dentro da música, ainda cultivo
o violão, tenho muitos discos, CDs, DVDs com os grandes
violonistas, daqui e do exterior, e sempre que posso estou
em contato com músicos.
G.B.V.
O sr. acha que os jovens de hoje têm interesse pela
música clássica?
Ronoel
Simões: Pouco, muito pouco. Ultimamente o violão
clássico vem sofrendo um desinteresse geral. Não
há mais aquele entusiasmo. As pessoas em si não
estão ligando muito para esse estilo de violão.
Até a década de 70 o violão clássico
era mais difundido. Hoje está em decadência.
Há pouca gente que se dedica a música erudita
hoje em dia, infelismente.
G.B.V.
Que conselho o Sr. Daria aos jovens de hoje que pretendem
estudar violão?
Ronoel
Simões: Eu aconselho a estudar o violão erudito,
com disciplina, classe e verdadeira dedicação.
Busquem enriquecer seu repertório com compositores
clássicos de qualidade como Bach, Bethoven, Debussy,
Chopin, Schumann, entre outros, e sigam sempre a partitura
original, nada de inventar ou fazer arranjos. Escolham obras
desafiadoras, como por exemplo, a “Chacona de Bach”,
que pode ser tocada em violão. É uma peça
muito difícil, tem 13 minutos de duração
e exige bastante treino. Mas é muita bonita e quando
você consegue tocá-la, é gratificante.
No final, só vale o que feito com perfeição.