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Entrevista
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G.B.V.
Há quanto tempo existe a “Padaria 14 de Julho”,
quem a inaugurou?
Alexandre
Franciulli
- A padaria 14 de julho existe desde 14 julho de 1897, 112
anos. Foi fundada por meu avô, Rafaeli Franciulli.
Ele era mecânico na Itália, mas quando chegou
ao Brasil não encontrava trabalho. A escassez de
serviços fez com que ele passasse a fazer pão
italiano para consumo da própria família.
Algum tempo depois, os vizinhos, que também eram
imigrantes italianos, começaram a pedir que ele fizesse
o pão para a familia deles. Foi quando surgiu a idéia
de produzir pão italiano comercialmente e então
ele abriu a padaria.
G.B.V.
Como era a padaria naquela época? Quais as principais
mudanças sofridas pelo estabelecimento de lá
pra cá?
Alexandre
Franciulli
-
Fisicamente falando, a padaria era como é hoje, praticamente
não mudou nada desde a época de sua fundação.
O forno, inclusive, foi feito por meu avô e assim
permanece. Houve alteração na administração
do estabelecimento. A padaria ficou fora da família
por 20 anos. Foi comprada pela família “Milano”.
Mas eu a recomprei de volta há uns 16 anos, mais
ou menos. Fora isso, houve a adaptação de
algumas receitas que eu faço, voltandas mais para
o gosto do brasileiro. A cantina (ao lado da padaria) é
nova, abrimos há uns três meses. Nos começamos
a fazer sanduíches de pernil e outros lanches e as
pessoas acabavam comendo em pé. Vendo esse desconforto
nos decidimos abrir o restaurante para atender melhor os
clientes e com isso também aproveitar para sugerir
novos pratos e lanches. Além disso, nos também
temos outra padaria na família, a “Italianinha”.
Quem toma conta de lá atualmente são minha
mãe e irmãs. Também é uma padaria
antiga, está na família há cerca de
70 anos.
G.B.V.
A “Padaria 14 de Julho” foi a primeira padaria
italiana de São Paulo?
Alexandre
Franciulli
-
A “14 de julho”, pelo meu conhecimento, é
a primeira padaria italiana do Brasil. Eu já fiz
pesquisa na internet e nunca achei nenhuma outra com data
anterior a fundação da nossa.
G.B.V.
Os clientes da “14 de Julho” são apenas
pessoas físicas ou há empresas que compram
de vocês?
Alexandre
Franciulli
-
Nos vendemos muito para rede de supermercados como, “Pão-de-Açúcar”,
“Açaí”, entre outros. Também
verndemos para várias cantinas, restaurantes, e clubes
como o “Palmeiras” e o “Pinheiros”.
G.B.V.
Vocês já receberam alguma premiação?
Alexandre
Franciulli
-
Sim nós já recebemos várias premiações
e também indicações de revistas e jornais
como “veja”, “go where”, “Guia
4 Rodas”, “Estadão”. Todos já
fizeram várias matérias aqui sobre a padaria,
o pessoal nos procura. Eu também já fiz várias
receitas na televisão. Ou seja, nós não
estamos limitados só com os aspectos gastronômicos
que envolvem a padaria e a cantina. Na verdade nós
trabalhamos com toda a área gastronômica italiana
em geral.
G.B.V.
Com toda essa quantidade de trabalho e atenção
que a padaria e a cantina exigem você teve tempo para
se formar academicamente?
Alexandre
Franciulli
-
Sim, eu me formei em direito por um desejo da minha família,
eu tive um tio que era ministro e era vontade dele, que
todo homem da família se formasse em direito. Então,
por tradição e respeito a ele eu cursei a
faculdade e me formei. mas o que eu gosto mesmo e da gastronomia.
Gosto de mexer com as receitas, criar novidades, fazer massa
e pratos personalizados para os clientes.
G.B.V.
Você é morador ou foi morador aqui do bairro?
Alexandre
Franciulli
-
Hoje eu não moro mais no bairro. Mas já morei
aqui na rua “14 de julho”, por 10 anos. Eu gosto
do”Bixiga”, mas como toda a cidade de São
Paulo, essa região também se tornou um pouco
violenta. Hoje nós temos segurança. Antigamente
não era necessário esse tipo de recurso, eu
até jogava bola na rua. Mas hoje não tem como.
Acho que a questão da segurança na “Bela
Vista” está deixando a desejar. Houve uma piora
em função do pessoal da cracolândia.
Muitos deles acabaram migrando pra cá depois de expulsos
da região da “Luz”. Por isso todo comerciante
aqui tem segurança particular.
G.B.V.
Essa violência interfere no movimento da casa?
Alexandre
Franciulli
-
Não porque nós também temos segurança
particular, assim como os demais comerciantes da região.
Além disso, comerciantes e moradores tem se juntado
e investido na preservação do bairro, mantendo
não só a segurança mas também
a limpeza, conservando praças e alguns outros lugares.
Tudo isso sem a ajuda da prefeitura. Somente através
da iniciativa privada.
G.B.V.
Você é favorável ao destombamento do
bairro em prol da modernização e melhorias
do mesmo?
Alexandre
Franciulli
-
Eu não acho que seria um destombamento total, seria
em etapas e somente em alguns lugares. Eu acredito que existem
vários imóveis tombados na região e
que não estão sob cuidados de ninguém.
Além disso, existe um outro problema bastante comum
aqui no “Bixiga”. O imóvel é tombado
e o proprietário que precisa do aluguel acaba transformando
um simples sobrado numa “Vila” para várias
famílias, como é chamado aqui. Ou seja, tudo
acaba virando um grande cortiço.
G.B.V.
Existe alguma associação de empresários
do Bixiga?
Alexandre
Franciulli
-
Na verdade temos o “Conseg” (Conselho Comunitário
de Segurança), mas a gente tem notado que o “Conseg”
não está com o mesmo empenho de antes. Parece
estar mais fraco agora, deu uma relaxada. Não sei
o que houve. Eu acharia importante ter uma maior união
entre os comerciantes para discutir e sanar os problemas
da região. Atualmente eu nem abro a noite por causa
da questão da segurança.
G.B.V.
Se você pudesse mudar alguma coisa no bairro o que
seria?
Alexandre
Franciulli
-
Acho que depois de melhorar a segurança, que é
o principal, a aparêcia do bairro também é
importante. Sendo assim, eu promoveria o embelezamento da
região e colocaria mais iluminação.
Afinal a “Bela Vista” é um bairro boêmio,
tem que ter mais iluminação.
G.B.V.
Você acha que essa característica Boêmia
da “Bela Vista” se perdeu um pouco com o tempo?
Alexandre
Franciulli
-
Eu acredito que não. Quando se vai de sábado
à noite até a rua “13 de Maio”,
percebe-se que o movimento caiu um pouco, sem dúvida.
Mas mesmo assim você vê que as “Casas”
(bares e restaurantes) estão sempre lotados. Mas
é claro que isso também se deve ao esforço
dos empresários que estão ali empenhados em
manter o público e a segurança.
G.B.V.
São Paulo é uma cidade enorme e sem dúvida,
não faltam padarias. Levando isso em conta, o que
torna a “Padaria 14 de julho” diferente das
outras?
Alexandre
Franciulli
-
Eu acho que o que diferencia a “14 de junho”
das demais é o produto artesanal e o atendimento
personalizado. Eu fico o dia inteiro e conheço a
maioria dos clientes, já sei o gosto de cada um deles
e isso, sem dúvida, é um diferencial que não
se encontra em nenhum outro lugar. Na verdade o cliente
acaba se tornando amigo nosso e tudo acaba se transformando
numa grande família.
G.B.V.
A “14 de Julho” produz algum item exclusivo?
Algum item que a torna ainda mais famosa do que ela já
é?
Alexandre
Franciulli
-
Pernil assado no vinho, receita exclusiva. Tem uma grande
aceitação. Não conheço nenhuma
outra que faça. Sem dúvida, esse é
um dos pontos de atração da padaria.