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Personagens do Bairro
Alexandre Franciulli
Texto: Marcelo Lanzoni
Fotos: Flávio Guarniero



Panetteria, salumeria e varietà 14 de Julho

Pão, Tradição e Sucesso

A vida em uma grande metrópole como São Paulo não é fácil. São milhões de pessoas correndo pra cima e pra baixo, daqui pra lá e de lá pra cá, num ritmo alucinante, todos os dias. Trânsito, barulho, confusão, estresse, loucura geral, tudo em busca de um lugar ao Sol. Algo perfeitamente compreensível, ainda mais nos dias atuais.
Porém, é exatamente essa pressa que nos impede de prestar atenção naquilo que está a nossa volta e de apreciar melhor alguns detalhes desta enorme cidade. Detalhes impregnados com memórias de São Paulo e que nos permite visitar seu passado, relembrando uma época em que a “terra da garoa” era mais boêmia, mais romântica, mais brilhante, e sem dúvida, mais humana. Um tempo repleto de histórias e curiosidades, prontas para serem recontadas pelos mais velhos e descobertas pelos mais novos.
Algumas dessas histórias passam pelo “Bixiga”, uma das regiões mais conhecidas de São Paulo, localizada no bairro da Bela Vista, próximo ao centro da cidade. Local em que muitos imigrantes italianos se estabeleceram, no final do século XIX. Alí formaram suas famílias, constuíram casas, desenvolveram o comércio, transformando a “Bela Vista” num bairro famoso e próspero, embora, infelizmente, não seja mais assim hoje em dia.
O tempo passou, a cidade cresceu e com ela cresceram também os problemas. O “Bixiga” sofreu com isso, assim como praticamente todas as regiões de São Paulo. Mas apesar de muita coisa ter mudado, a “Bela Vista” ainda conserva alguns de seus encantos. Alguns de seus “detalhes”.
É o caso da “Padaria 14 de Julho”, que aos longo de 112 anos de existência ainda mantém as mesmas características que fizeram dela uma das mais famosas e tradicionais padarias italianas da cidade e que agora também incorpora a novíssima “Cantina 14 de Julho”, ao lado da padaria. Alexandre Franciulli, proprietário do estabelecimento, contou ao “Guia Bela Vista” um pouco mais sobre essa trajetória de trabalho e sucesso. Veja como foi a conversa...

------ Entrevista ------

G.B.V. Há quanto tempo existe a “Padaria 14 de Julho”, quem a inaugurou?

Alexandre Franciulli - A padaria 14 de julho existe desde 14 julho de 1897, 112 anos. Foi fundada por meu avô, Rafaeli Franciulli. Ele era mecânico na Itália, mas quando chegou ao Brasil não encontrava trabalho. A escassez de serviços fez com que ele passasse a fazer pão italiano para consumo da própria família. Algum tempo depois, os vizinhos, que também eram imigrantes italianos, começaram a pedir que ele fizesse o pão para a familia deles. Foi quando surgiu a idéia de produzir pão italiano comercialmente e então ele abriu a padaria.

G.B.V. Como era a padaria naquela época? Quais as principais mudanças sofridas pelo estabelecimento de lá pra cá?

Alexandre Franciulli - Fisicamente falando, a padaria era como é hoje, praticamente não mudou nada desde a época de sua fundação. O forno, inclusive, foi feito por meu avô e assim permanece. Houve alteração na administração do estabelecimento. A padaria ficou fora da família por 20 anos. Foi comprada pela família “Milano”. Mas eu a recomprei de volta há uns 16 anos, mais ou menos. Fora isso, houve a adaptação de algumas receitas que eu faço, voltandas mais para o gosto do brasileiro. A cantina (ao lado da padaria) é nova, abrimos há uns três meses. Nos começamos a fazer sanduíches de pernil e outros lanches e as pessoas acabavam comendo em pé. Vendo esse desconforto nos decidimos abrir o restaurante para atender melhor os clientes e com isso também aproveitar para sugerir novos pratos e lanches. Além disso, nos também temos outra padaria na família, a “Italianinha”. Quem toma conta de lá atualmente são minha mãe e irmãs. Também é uma padaria antiga, está na família há cerca de 70 anos.

G.B.V. A “Padaria 14 de Julho” foi a primeira padaria italiana de São Paulo?

Alexandre Franciulli - A “14 de julho”, pelo meu conhecimento, é a primeira padaria italiana do Brasil. Eu já fiz pesquisa na internet e nunca achei nenhuma outra com data anterior a fundação da nossa.

G.B.V. Os clientes da “14 de Julho” são apenas pessoas físicas ou há empresas que compram de vocês?

Alexandre Franciulli - Nos vendemos muito para rede de supermercados como, “Pão-de-Açúcar”, “Açaí”, entre outros. Também verndemos para várias cantinas, restaurantes, e clubes como o “Palmeiras” e o “Pinheiros”.

G.B.V. Vocês já receberam alguma premiação?

Alexandre Franciulli - Sim nós já recebemos várias premiações e também indicações de revistas e jornais como “veja”, “go where”, “Guia 4 Rodas”, “Estadão”. Todos já fizeram várias matérias aqui sobre a padaria, o pessoal nos procura. Eu também já fiz várias receitas na televisão. Ou seja, nós não estamos limitados só com os aspectos gastronômicos que envolvem a padaria e a cantina. Na verdade nós trabalhamos com toda a área gastronômica italiana em geral.

G.B.V. Com toda essa quantidade de trabalho e atenção que a padaria e a cantina exigem você teve tempo para se formar academicamente?

Alexandre Franciulli - Sim, eu me formei em direito por um desejo da minha família, eu tive um tio que era ministro e era vontade dele, que todo homem da família se formasse em direito. Então, por tradição e respeito a ele eu cursei a faculdade e me formei. mas o que eu gosto mesmo e da gastronomia. Gosto de mexer com as receitas, criar novidades, fazer massa e pratos personalizados para os clientes.

G.B.V. Você é morador ou foi morador aqui do bairro?

Alexandre Franciulli - Hoje eu não moro mais no bairro. Mas já morei aqui na rua “14 de julho”, por 10 anos. Eu gosto do”Bixiga”, mas como toda a cidade de São Paulo, essa região também se tornou um pouco violenta. Hoje nós temos segurança. Antigamente não era necessário esse tipo de recurso, eu até jogava bola na rua. Mas hoje não tem como. Acho que a questão da segurança na “Bela Vista” está deixando a desejar. Houve uma piora em função do pessoal da cracolândia. Muitos deles acabaram migrando pra cá depois de expulsos da região da “Luz”. Por isso todo comerciante aqui tem segurança particular.

G.B.V. Essa violência interfere no movimento da casa?

Alexandre Franciulli - Não porque nós também temos segurança particular, assim como os demais comerciantes da região. Além disso, comerciantes e moradores tem se juntado e investido na preservação do bairro, mantendo não só a segurança mas também a limpeza, conservando praças e alguns outros lugares. Tudo isso sem a ajuda da prefeitura. Somente através da iniciativa privada.

G.B.V. Você é favorável ao destombamento do bairro em prol da modernização e melhorias do mesmo?

Alexandre Franciulli - Eu não acho que seria um destombamento total, seria em etapas e somente em alguns lugares. Eu acredito que existem vários imóveis tombados na região e que não estão sob cuidados de ninguém. Além disso, existe um outro problema bastante comum aqui no “Bixiga”. O imóvel é tombado e o proprietário que precisa do aluguel acaba transformando um simples sobrado numa “Vila” para várias famílias, como é chamado aqui. Ou seja, tudo acaba virando um grande cortiço.

G.B.V. Existe alguma associação de empresários do Bixiga?

Alexandre Franciulli - Na verdade temos o “Conseg” (Conselho Comunitário de Segurança), mas a gente tem notado que o “Conseg” não está com o mesmo empenho de antes. Parece estar mais fraco agora, deu uma relaxada. Não sei o que houve. Eu acharia importante ter uma maior união entre os comerciantes para discutir e sanar os problemas da região. Atualmente eu nem abro a noite por causa da questão da segurança.

G.B.V. Se você pudesse mudar alguma coisa no bairro o que seria?

Alexandre Franciulli - Acho que depois de melhorar a segurança, que é o principal, a aparêcia do bairro também é importante. Sendo assim, eu promoveria o embelezamento da região e colocaria mais iluminação. Afinal a “Bela Vista” é um bairro boêmio, tem que ter mais iluminação.

G.B.V. Você acha que essa característica Boêmia da “Bela Vista” se perdeu um pouco com o tempo?

Alexandre Franciulli - Eu acredito que não. Quando se vai de sábado à noite até a rua “13 de Maio”, percebe-se que o movimento caiu um pouco, sem dúvida. Mas mesmo assim você vê que as “Casas” (bares e restaurantes) estão sempre lotados. Mas é claro que isso também se deve ao esforço dos empresários que estão ali empenhados em manter o público e a segurança.

G.B.V. São Paulo é uma cidade enorme e sem dúvida, não faltam padarias. Levando isso em conta, o que torna a “Padaria 14 de julho” diferente das outras?

Alexandre Franciulli - Eu acho que o que diferencia a “14 de junho” das demais é o produto artesanal e o atendimento personalizado. Eu fico o dia inteiro e conheço a maioria dos clientes, já sei o gosto de cada um deles e isso, sem dúvida, é um diferencial que não se encontra em nenhum outro lugar. Na verdade o cliente acaba se tornando amigo nosso e tudo acaba se transformando numa grande família.

G.B.V. A “14 de Julho” produz algum item exclusivo? Algum item que a torna ainda mais famosa do que ela já é?

Alexandre Franciulli - Pernil assado no vinho, receita exclusiva. Tem uma grande aceitação. Não conheço nenhuma outra que faça. Sem dúvida, esse é um dos pontos de atração da padaria.

A Padaria 14 de Julho fica na Rua 14 de Julho, nº 92, no bairro da Bela Vista.
Seus horários de funcionamento são, 2ª a partir das 12:00 até às 20:00, de 3ª a sábado das 7:00 às 20:30 e domingo das 7:00 às 18:00.

Website: www.14dejulho.com.br


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