Abaixo-assinado
de moradores pede shopping na Bela Vista
Quase 5 mil já deram apoio ao projeto do Grupo Silvio
Santos, combatido pelo Teatro Oficina
Bruno Paes Manso
É ano de efemérides na Bela Vista, distrito
no centro de São Paulo. Além dos 130 anos
do Bexiga, recém-comemorados, o Grupo Silvio Santos
e o Teatro Oficina, com sedes na região, celebram
50 anos de existência. Junto com as festas deste mês,
volta a pegar fogo uma antiga polêmica que envolve
os grupos.
Desde o mês passado, lideranças e moradores
da Bela Vista passam um abaixo-assinado em apoio ao projeto
de construção do Shopping Bela Vista Festival
Center, a ser construído pela Sisan Empreendimentos,
braço imobiliário do Grupo Silvio Santos,
no quarteirão do Teatro Oficina, na Rua Jaceguai.
A obra é combatida pelo diretor do Oficina, José
Celso Martinez Corrêa.
"O Zé Celso ganhou a campanha de marketing,
e os paulistanos ficam sem saber o que pensam os moradores
do bairro. Nós queremos o shopping para reverter
o processo de degradação enfrentado pela Bela
Vista e pelo Bexiga. O Oficina é um patrimônio
do bairro e deve continuar onde está. Mas não
pode impedir o progresso", afirma o publicitário
Flávio Guarniero, do Conselho de Segurança
da Bela Vista e um dos organizadores do abaixo-assinado.
Junto com o síndico do Condomínio Viadutos,
João Silva Bonfim, da Ação Local da
Rua Maria Paula, e o empresário Rui de Souza Mello,
do Conseg do bairro, conseguiram quase cinco mil assinaturas.
"O que move o mundo é o dinheiro. Com a vinda
do shopping, vai aumentar a segurança, além
de despertar a lombriga de quem tem mais dinheiro para investir
no bairro", avalia Mello.
Tombado em 1983, a Bela Vista, que engloba o Bexiga, mostra
hoje evidentes sinais de decadência e desordem. A
Rua Conde de São Joaquim, onde fica a empresa de
Mello, hoje tem pelo menos 15 pensões e cortiços.
Há lixo e esgoto pela rua.
Apesar de os índices de criminalidade na região
terem diminuído neste ano, o número de roubos
e furtos é elevado: cerca de 20 por dia, principalmente
de celulares. "São crimes oportunistas, que
ocorrem principalmente na hora do rush. Mas assustam a população",
diz o capitão Genivaldo Antônio, da 1ª
Companhia da PM. "Como policial, não tenho posição
sobre a polêmica. Como cidadão, acho que o
shopping pode estimular os empreendimentos no bairro e ajudar
a diminuir a sensação de desordem", afirma.
Moradores do bairro afirmam que os problemas começaram
com a série de invasões ocorridas em dois
edifícios e um galpão da região em
dezembro de 1999. Com o passar dos anos, os imóveis
vizinhos foram sendo invadidos e os moradores da rua deixaram
suas casas.
"Morava na rua e tive que me mudar. Hoje só
mantenho a empresa no mesmo local. De noite, a barra fica
muito pesada, e não demora muito para a rua tornar-se
uma cracolândia", diz Mello.
Os alunos do Centro Universitário Ibero-Americano
(Unibero), na Avenida Brigadeiro Luís Antônio,
são também vítimas preferenciais. O
diretor da entidade, Elwyn Correia, calcula que dois alunos
são assaltados por dia. Os alvos prediletos são
celulares. Para enfrentar o problema, ele teve de disponibilizar
ônibus para levar e trazer estudantes do metrô
e contratar três seguranças privados. "As
coisas pioraram nos últimos cinco anos. Das seis
unidades que temos na Grande São Paulo, incluindo
bairros em lugares mais pobres e afastados, como Campo Limpo
e Pirituba, esse câmpus é o que mais dá
problemas", diz.
Na visão dos moradores e comerciantes que assinam
o abaixo-assinado, a construção do shopping
aparece como o alavancador de novos investimentos e da volta
da ordem na Bela Vista. Proprietária do Teatro Brigadeiro,
Maria Inês Burini Chaccurt viu o Teatro Bandeirantes
transformar-se em uma igreja evangélica e a decadência
do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). "O shopping
vai ajudar a trazer de volta o dinamismo da região.
Por isso estamos pedindo para freqüentadores e artistas
assinarem o abaixo-assinado", diz ela.
Apesar do movimento dos moradores, a Sisan Empreendimentos
realiza consultas no Conpresp e no Condephaat para construir
duas torres de apartamentos no lugar do shopping. Os conselhos
municipal e estadual de patrimônio histórico
ainda não definiram se autorizam ou não o
empreendimento. O Estado procurou o diretor da Sisan, Eduardo
Velucci, mas não obteve retorno.
CONTRA-ATAQUE
Para responder ao manifesto dos moradores da Bela Vista,
o diretor do Teatro Oficina, José Celso Martinez
Corrêa, diz que pretende usar armas parecidas. Pretende
passar, ainda em outubro, um abaixo-assinado em defesa dos
projetos que defende para o bairro, como a Universidade
Antropofágica e o Anhangabaú da Felicidade,
teatro com 5 mil lugares no fundo do Oficina. "Queremos
misturar as diferentes classes sociais no bairro, não
expulsar os mais pobres", diz. "É isso
que vai ocorrer se o shopping for construído."
Link: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081018/not_imp262139,0.php