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128 Anos do Bixiga
Texto: Gazzetta D'Italia (Publicado em setembro de 2006)


Foto do Túnel 9 de Julho (lado do Bixiga), tirada na década de 20.
Acima, vemos o antigo salão de bailes, onde hoje fica o Masp.

Marcado pela presença da imigração italiana que recebeu intensamente desde o final do século XIX, o Bixiga foi se tornando famoso em virtude das cantinas que nele iam sendo instaladas. Nos anos 50, com a fundação do TBC -Teatro Brasileiro de Comédia, o bairro deixou de ser conhecido apenas com um ponto gastronômico e passou a ser associado à cultura num sentido mais amplo. Aliás, isso acontece até hoje, apesar de muito de seus bares, cantinas e casas de espetáculo terem fechado suas prtas.
Entretanto, as massas, o cabrito, as peças teatrais, as noitadas regadas a muito chope e vinho, que o tornaram famoso, nem sempre foram a marca do bairro. Até a década de 30, o Bixiga era estritamente residencial.
O 1° de otubro, data oficial de seu aniversário, foi o dia em que, há 128 anos, em 1878, o imperador Dom Pedro II, oficializava, num terreno situado entre as ruas Abolição, Major Diogo, Santo Antônio e São Domingos, o início da construção de um prédio idealizado para abrigar a Santa Casa de Misericórdia. O quarteirão fora doado à Irmandade Misericórdia por Antônio José Leite Braga, propietário de vários terrenos no Bixiga.
Durante a obra, entretanto, alguns médicos acharam que aquele não seria o local mais apropiado para abrigar um hospital, e o projeto foi transferido para a Vila Buarque. Mas aquela presença imperial maracara a data como sendo o dia da fundação do bairro.
Na verdade, muito antes disso, em 1559, as terras do Bixiga já tinham un dono: Fernão Dias Paes Leme, tio-avô do bandeirante que seria mais tarde conhecido como o "caçador de esmeraldas". Em 1750, elas passaram para as mãos do historiador Pedro Taques e, dali para frente, trocaram de dono várias vezes.
Margeados pelos córregos Saracura e Anhangabaú, cobertas por uma vegetação nativa e rica em árvores frutíferas, eram terras muito propícias para a caça de veados e perdizes, além do que, muito utilizadas para esconderijo de escravos fugitivos. Essas terras ficaram conhecidas por muito tempo como Chácara da Samambaia, e um de seus donos mais famosos chamava-se Antônio Bexiga. Este, além de possuir uma hospedaria, onde pernoitavam viajantes que comercializavam animais vindos de Sorocaba, vendia bexigas de boi, uma vez que sua propriedade era próxima ao matadouro municipal.
Até hoje não se sabe se o nome do bairro se deve ao nome desse antigo propietário, bem como do comércio a que se dedicava ou se ao fato de os negros contagiados pela varíola, vulgarmente chamada de bexiga, serem isolados no famoso Largo do Piques, hoje Praça da Bandeira e que com o passar do tempo se transformou num bebedouro para cavalos. Pode se dever também à combinação de ambos os fatores, até porque, o próprio Antônio Bexiga acabou sendo infectado pela varíola.
Não é também de se descartar que pesem nessa combinação outros fatos que nos sejam até hoje desconhecidos, especialmente se for levado em conta um documento do Senado da Câmara, de 1793, referente à construção de um chafariz. Nele, são mencionados carreiros que haviam levado pedras do Bixiga para aquela obra.
O certo é que a palavra Bixiga com "i", conforme era pronuncida por italianos e negros, acabou sendo a mais usada e que, na mente dos paulistanos, sempre existiu uma associação entre o bairro e o universo cultural. Façamos votos para que a luta pela revitalização do Bixiga seja vitoriosa e que o bairro volte a oferecer condições para que essa associação prevaleça sempre.


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