Marcado
pela presença da imigração italiana
que recebeu intensamente desde o final do século
XIX, o Bixiga foi se tornando famoso em virtude das cantinas
que nele iam sendo instaladas. Nos anos 50, com a fundação
do TBC -Teatro Brasileiro de Comédia, o bairro deixou
de ser conhecido apenas com um ponto gastronômico
e passou a ser associado à cultura num sentido mais
amplo. Aliás, isso acontece até hoje, apesar
de muito de seus bares, cantinas e casas de espetáculo
terem fechado suas prtas.
Entretanto, as massas, o cabrito, as peças teatrais,
as noitadas regadas a muito chope e vinho, que o tornaram
famoso, nem sempre foram a marca do bairro. Até a
década de 30, o Bixiga era estritamente residencial.
O 1° de otubro, data oficial de seu aniversário,
foi o dia em que, há 128 anos, em 1878, o imperador
Dom Pedro II, oficializava, num terreno situado entre as
ruas Abolição, Major Diogo, Santo Antônio
e São Domingos, o início da construção
de um prédio idealizado para abrigar a Santa Casa
de Misericórdia. O quarteirão fora doado à
Irmandade Misericórdia por Antônio José
Leite Braga, propietário de vários terrenos
no Bixiga.
Durante a obra, entretanto, alguns médicos acharam
que aquele não seria o local mais apropiado para
abrigar um hospital, e o projeto foi transferido para a
Vila Buarque. Mas aquela presença imperial maracara
a data como sendo o dia da fundação do bairro.
Na verdade, muito antes disso, em 1559, as terras do Bixiga
já tinham un dono: Fernão Dias Paes Leme,
tio-avô do bandeirante que seria mais tarde conhecido
como o "caçador de esmeraldas". Em 1750,
elas passaram para as mãos do historiador Pedro Taques
e, dali para frente, trocaram de dono várias vezes.
Margeados pelos córregos Saracura e Anhangabaú,
cobertas por uma vegetação nativa e rica em
árvores frutíferas, eram terras muito propícias
para a caça de veados e perdizes, além do
que, muito utilizadas para esconderijo de escravos fugitivos.
Essas terras ficaram conhecidas por muito tempo como Chácara
da Samambaia, e um de seus donos mais famosos chamava-se
Antônio Bexiga. Este, além de possuir uma hospedaria,
onde pernoitavam viajantes que comercializavam animais vindos
de Sorocaba, vendia bexigas de boi, uma vez que sua propriedade
era próxima ao matadouro municipal.
Até hoje não se sabe se o nome do bairro se
deve ao nome desse antigo propietário, bem como do
comércio a que se dedicava ou se ao fato de os negros
contagiados pela varíola, vulgarmente chamada de
bexiga, serem isolados no famoso Largo do Piques, hoje Praça
da Bandeira e que com o passar do tempo se transformou num
bebedouro para cavalos. Pode se dever também à
combinação de ambos os fatores, até
porque, o próprio Antônio Bexiga acabou sendo
infectado pela varíola.
Não é também de se descartar que pesem
nessa combinação outros fatos que nos sejam
até hoje desconhecidos, especialmente se for levado
em conta um documento do Senado da Câmara, de 1793,
referente à construção de um chafariz.
Nele, são mencionados carreiros que haviam levado
pedras do Bixiga para aquela obra.
O certo é que a palavra Bixiga com "i",
conforme era pronuncida por italianos e negros, acabou sendo
a mais usada e que, na mente dos paulistanos, sempre existiu
uma associação entre o bairro e o universo
cultural. Façamos votos para que a luta pela revitalização
do Bixiga seja vitoriosa e que o bairro volte a oferecer
condições para que essa associação
prevaleça sempre.