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Logo
depois do almoço peguei minha mochila, um monte de
filmes de diferentes asa, a máquina fotográfica,
pus a jaqueta cáqui de capuz e atravessei, de ônibus,
boa parte do centro da cidade para chegar até aqui.
Garoava muito, uma garoa antiga e ininterrupta. E era sexta-feira.
Há uma agitação maior no ar às
sextas-feiras. O trânsito fica mais pesado e lento,
há mais gente circulando, com ou sem chuva.
Parei
em frente ao hospital infantil que existe na rua dos Ingleses,
ali onde ela alarga um pouco, quase virando uma espécie
de praça, na verdade um canteiro central maior do que
o comum, onde se concentra a turma que vende comida. Do outro
lado, em frente ao hospital, está a escadaria que liga
a rua dos Ingleses à Treze de Maio. E à esquerda
da escadaria, fica o Teatro. Olhei a sujeira que os ambulantes
fazem vendendo pastéis, pedaços de pizza, hot-dog
e fiquei mal-humorada. Se fosse apenas um vendendo doces,
ou o pipoqueiro, tudo bem. Mas, não. São vários.
O que significa vários cestos de lixo. E o excesso
que deles cai, espalha-se pelo chão, provavelmente
criando focos de infecção.
Eu
tinha de fotografar um poste antigo de São Paulo. Escolhi
esse local por causa da escada que acentua o clima romântico
que eu procuro. O centro da cidade está cheio desses
postes, mas aqui, dispostos ao longo da escadaria, dão
uma sensação de mistério.
Abri
a mochila, tirei a Asahi e comecei, click, click, desviando
do lixo, atenta ao barulho do filme girando. Fiquei perambulando
por ali, click, click, olhando torto para os ambulantes e
suas pilhas de lixo, que são o mais perfeito retrato
do caos desta cidade. De quem nela habita e de quem a governa.
Troquei
o filme, a garoa apertou, pus o capuz e me senti feliz por
estar no meio do frio e da umidade. Achei que o verão
ia durar para sempre e a sensação de calor eterno,
até uns dias atrás, havia me apavorado. Meus
lábios estavam ressecados, a garoa apertou mais um
pouco, o dia escureceu muito e uma fumaça suave, de
filme europeu, passou por mim. Ou, o que é mais provável,
pela minha imaginação.
Click,
click, girei o corpo e no visor apareceu um mendigo encostado
exatamente no primeiro poste, ao lado da escada. Como é
que ele foi parar ali? Droga. Esperei um pouco, quem sabe
com a garoa aumentando ele ia embora logo. De fato, dez minutos
depois, ele se foi. Enquadrei de novo o poste e quando fiz
click um pedaço de maçã passou voando
pela frente do visor. Olhei para o lado de onde tinha vindo
o pedaço de maçã e um menino de uns seis
anos, mais ou menos, repreendido pela mãe, fazia cara
de choro. Mudei de ângulo, agora de olho na mureta de
pedra e nos galhos secos das árvores, ambos molhados
de chuva. Quando encostei a máquina no rosto, o celular
começou a tocar. E meu celular está programado
para tocar bem alto e fazer muito barulho.
—
Lídia? Lídiaaaaaaaaaaa! Fala mais alto!
A
rua inteira olhou para mim. Disfarcei e virei a cabeça
para o alto, para o cartaz do teatro: Only You, de Consuelo
de Castro, a moça que se apaixona por um escritor em
crise. A voz da Lídia vinha entrecortada e a minha
devia estar do mesmo jeito:
—
Você chegou agora? Olha, estou na rua dos Ingleses.
Sabe o teatro Ruth Escobar? Ao lado tem numa lanchonete. Vou
te esperar lá. É um lugar pequeno e escuro,
parece uma caverna.
Guardei
o celular e peguei a máquina de novo. Assim que consegui
um enquadramento que me pareceu quase, mas quase perfeito,
um caminhão de bebidas estacionou no meio-fio e encobriu
o poste.
Desisto.
Fica para amanhã.
Entrei
na lanchonete-caverna, pedi um café e sentei à
uma mesa perto da entrada. Tão logo me acomodei o caminhão
descarregou os dois últimos engradados e se preparava
para sair. Fiz menção de levantar mas parei,
com a xícara de café na mão, a meio caminho
da boca: por hoje chega mesmo, não fotografo mais nada.
Tomei o café sem pressa, sossegada, cheia de prazer.
Depois tirei da mochila meu caderno de anotações,
um lápis, e comecei a desenhar a rua, imaginando-a
sem os ambulantes, sem aquela sujeira de gordura, lixo e molhos
caídos no chão. Olhei o desenho. Ficou bom.
Fechei o caderno e quando abaixei para guardá-lo, dei
de cara com uma pequena lagartixa.
Completamente
alheia a mim e a tudo, ela subia pela parede. Em silêncio,
quase sem respirar, peguei a máquina de cima da mesa
e click! Apenas a parede, nada além da parede. Até
eu ajustar o foco, a lagartixa se fora. Se a Asahi estivesse
no automático eu não teria perdido a foto da
lagartixa. E ela era tão bonita, tão familiar,
até achei que ia conversar comigo.
Nisso
Lídia chegou. Com seus cabelos claros, lisos e finos,
de uma cor indefinida, que sugerem um campo de trigo ao pôr-do-sol
no outono. Visto na tela de um cinema, claro. Ela sorriu e
gritou:
— Oi, brima! Ajeitou o óculos no nariz, gesto
esse que caracteriza e ressalta seu ar inteligente e atento:
— Demorei?
— Não, acho que não. Falar a verdade nem
percebi o tempo passar. Foi bem de viagem?
— Fui. A estrada estava legal.
— Achei que você fosse chegar mais tarde. Cadê
a sua mala?
— E ia mesmo, mas acabei vindo antes. Mala? Para passar
dois dias e meio? Eu trouxe só as coisas imprescindíveis:
três calcinhas, três meias, escova de dentes e
duas camisetas. Qualquer emergência eu uso uma roupa
sua.
— Claro. Usa minhas roupas, fuma meus cigarros, dorme
na minha cama....
— Acaricio seu gato e namoro um pouco seu namorado....Rá!Rá!Rá!
Vou pegar um café. O seu acabou? Quer outro?
— Quero.
Ela foi buscar os nossos cafés e eu sabia a pergunta
que viria a seguir, quando ela voltasse com as xícaras:
— Como vai o Tomás?
Fiz uma pausa longa e constrangedora, olhei para o vazio,
prendi a respiração, apertei os lábios
e abaixei a voz:
— Acabou, Lídia.
— Acabou? Como assim, acabou? Não acredito! Me
recuso a acreditar nisso!
Meu
espírito desapareceu dali e vagou pela cidade inteira,
por todas as suas ruas e vielas, pelo sol às vezes
implacável de janeiro, pelas noites cálidas
de março e abril, pelo vento do outono, pela umidade
do inverno. Onde estaria Tomás? Começou a doer,
a sangrar, quis sair dali correndo para algum lugar, mas não
sabia que lugar seria esse.
—
Acorda, Júlia! O que você quer dizer com “acabou”?
— Isso, Lídia. Acabou.
— Porquê? Qual a razão, posso saber?
— Não sei direito, Lídia, não sei
mesmo.
— Acabou e você não sabe dizer porquê?
— É. Não sei.
Nem
olhei para o cinzeiro em cima da mesa. Joguei a bituca do
cigarro no chão e amassei com o tênis. A imagem
de Tomás estava ali, flutuando na fumaça do
café. Etérea. Lídia suspirou fundo, enrolou
o cachecol e olhou para a mesa:
—
Este cigarro mentolado é seu?
— É. Acabo de ficar viciada nele de novo. A primeira
vez foi quando comecei a fumar, aos dezessete anos. Agora
voltou de novo essa coisa. Estou fumando duas marcas alternadamente.
Três carltons e um mentolado.
— Vou perguntar pela terceira vez: porque acabou?
(juro
que vou amar você sempre, e um trompete tocou tão
sussurrado e tão gostoso que a resposta de Tomás
ao que eu havia acabado de jurar se perdeu. Ouça, ele
disse, é Chet Baker tocando Retrato em branco-e-preto,
afastei a cortina um pouco, uma madrugada luminosa começou
a entrar no terraço daquele apartamento antigo. Passei
a ponta do indicador na parede, muito de leve, como se com
ela eu fizesse um risco alongado e sinuoso, continuei o risco
invisível no lençol e depois pelas costas de
Tomás, um cheiro bom e forte de tabaco na respiração,
um perfume de gardênia no ar, ele apertou minha cabeça
no seu peito e riu: puxa, Júlia! sempre quero acariciar
seus cabelos e nunca acho muita coisa, porque você deixa
assim tão curto? Passei a mão neles, claros,
densos, cheios de histórias e segredos, de trajetos,
lacunas e perspectivas. E também de enganos. Jura que
você nunca vai me abandonar? e ele beijou a ponta do
meu nariz, um pouco inseguro, não vou, juro que não
vou, juro mesmo, porque eu te abandonaria? Ele me apertou
mais forte e começou a amanhecer de um jeito sorrateiro
naquele terraço, naquele quarto, naquele apartamento,
árvores seculares e frondosas lá embaixo, os
postes antigos debaixo delas, as folhas secas caídas
pela calçada e levadas pelo vento suave da primeira
hora da manhã.)
—
Você tinha de insistir na pergunta, Lídia?
Fiz uma cara tão infeliz que ela ficou meio constrangida.
Peguei a mochila do chão e tirei de dentro dela o caderno
de anotações, numa tentativa de mudar de assunto:
— Dá uma espiada, é um esboço que
eu fiz deste trecho da rua, sem os famigerados ambulantes,
os carros estacionados e esse lixo todo esparramado pelo chão.
Ela observou por alguns minutos, entortou a cabeça
um pouco para o lado, me olhou por cima do óculos,
muito compenetrada, e falou:
— Parece um mapa rodoviário.
Peguei o caderno da mão dela e guardei.
A
garoa aumentou e o silêncio momentâneo que pairou
no ar fez com que os sons do interior da lanchonete ficassem
mais audíveis: clec de latas de refrigerante sendo
abertas, plunc da porta da geladeira se fechando, tsssss de
um hambúrguer na chapa, chec de guardanapos sendo amassados.
Até então estávamos só nós
duas sentadas, mas aí entrou um pessoal que havia acabado
de sair do teatro, rindo e falando alto, provavelmente eles
estavam ensaiando alguma peça e tinham feito uma pausa
para tomar lanche. Com a chegada deles a lanchonete-caverna,
que já era pequena, ficou menor ainda.
A
lembrança de Tomás ia e vinha, em ondas, intensa
e dolorida, mordi os lábios esperando e querendo que
amenizasse, a tarde escorrendo entre meus dedos e se alojando
na fímbria da minha calça jeans. Fiz um esforço
enorme para dizer alguma coisa culta, inteligente e interessante.
Não saiu nada.
—
Lídia, tenho de ir ao Itaim entregar estas fotos. Vamos?
Pagamos os cafés e saímos. Ela olhou em volta:
— Onde está seu carro?
— Não vim de carro. Vamos pegar o ônibus
na Treze de Maio.
Começamos
a descer a escadaria e enquanto descíamos ela olhou
para trás várias vezes.
— O que foi, Lídia?
— Tive a impressão de ter visto alguém
atrás de você.
Instintivamente olhei para trás mas não vi ninguém.
— Já senti isso, Lídia. Aqui mesmo.
— Quando?
— Várias vezes. Mas ha uns dez dias foi mais
forte. Eu vim ao teatro e na saída fiquei parada no
topo da escada olhando para baixo. Então desci uns
quatro degraus, nem sei porquê, e senti algo atrás
de mim. Alguém, alguma coisa, não sei dizer
o que era. E o ar foi ficando denso, compacto, pesado. Um
calor danado, eu sentia até a respiração
forte da pessoa, da...
Nisso
o ônibus entrou na Treze de Maio. Corremos meio quarteirão
para chegar no ponto ao mesmo tempo que ele. Sorte que estava
meio vazio e tinha lugar para sentar.
O
Itaim deve ser o único bairro em São Paulo que
ainda tem um cinema na rua. O pequeno Lumiére, na Joaquim
Floriano, resistiu heroicamente sem nenhuma reforma ou modernização
que houvesse descaracterizado o seu jeito de cinema antigo.
Pela janela do ônibus dá para ver a cara da bilheteira,
atrás do vidro, olhando a garoa com ar de enfado.
—
Mas vai ser por pouco tempo, eu disse assim que descemos.
Logo ele desaparece. Odeio andar de ônibus quando está
garoando. As pessoas têm o péssimo hábito
de fechar todas as janelas e fica irrespirável lá
dentro. Aliás, para que janela? Daqui a pouco serão
substituídas por aqueles vidros fumês que não
abrem.
— Adoro seu mau-humor.
— Não estou mal-humorada. É este o prédio.
Nem vou subir. Vou deixar na portaria mesmo.
Saímos do prédio, atravessamos a rua e fomos
para o Joakin´s comer. Sentamos à uma mesa do
lado da janela, aquela que não abre, e pedimos toneladas
de hambúrgueres com cebola crua, maionese, batatas
fritas e milk shake.
— Lídia, você continua trabalhando no mesmo
lugar?
— Não. Deixa eu terminar de comer que já
te conto.
— Entendi. Mudou de emprego de novo.
Lídia sempre teve a enorme vocação para
nunca ficar mais de três meses no mesmo emprego, largar
as coisas pela metade, mudar de casa e de cidade freqüentemente,
sumir e reaparecer uns tempos depois. Quando ela morava em
São Paulo eu me dava ao luxo de reclamar bastante e
de encher bem a sua paciência, quase que todos os dias.
Depois que ela mudou para a Ilha a distância suprimiu
minhas rabugices ou quem sabe foi o tempo que me acrescentou
um pouco de sabedoria e serenidade.
— Você? Sábia e serena? Rá!Rá!Rá!
— Eu não disse que sou. Eu disse t-a-l-v-e-z.
— Mesmo esse talvez, em você, é muito pretensioso.
* * * * *
Conheci
Tomás nesta rua, faz um ano. Ele atravessou correndo,
sem olhar para lugar nenhum e quando chegou na calçada
deu um encontrão em mim. E lá se foi para o
chão tudo que eu carregava: fichário, caderno,
agenda, guarda-chuva, livros. Mas o pior mesmo foram os milhões
de papeizinhos que estavam dentro disso tudo e que voaram
pela rua. Ele pediu um monte de desculpas e abaixou depressa
para tentar pegar o que havia caído, meio atordoado,
sem saber por onde começar. Abaixei junto, admirando
sua elegância e sobriedade, os cabelos perfumados. Quando
acabamos de pegar tudo ele se desculpou mais uma vez e foi
embora.
Três
semanas depois encontrei-o casualmente na rua Marconi, engraxando
os sapatos. Sentado naquelas cadeiras altas de engraxate,
lendo o jornal, coisa meio antiga isso de engraxar o sapato
no meio da rua lendo o jornal, me lembrou meu tio, fiquei
olhando de longe, durante um bom tempo, até que resolvi
fazer uma foto e na ponta do pé fui me aproximando
um pouco, peguei a máquina com cuidado, click, virei
de lado, click, me aproximei mais, click, click, ele me viu,
deu um pulo da cadeira e veio até onde eu estava com
cara de quem ia dar uma solene bronca. Tirei a máquina
do rosto, ele me olhou com os olhos semicerrados, franzindo
a testa. Não agüentei e caí na gargalhada.
— Eu acho que conheço você, ele disse.
— Do Itaim, faz uns vintes dias. Você derrubou
minhas coisas no chão.
— Isso mesmo. Tudo bem? Você é fotógrafa?
— Sou sim.
Então fomos tomar uma coca-cola em um bar ali perto
e ficamos meio embaraçados olhando um para o outro
porque assim começam os grandes amores. Estava calor,
eu suava muito, a boca seca, ele passou o dedo no meu rosto:
— Júlia, quero você.
* * * * *
—
Esta é a minha nova casa, Lídia.
Abri a porta do apartamento, no último andar de um
prédio velho mas confortável e arejado, deixando
que ela entrasse primeiro. A janela da sala escancarada, as
folhas secas da floreira esparramadas pelo chão, o
sofá bege com uma manta xadrez em cima, a luminária
amarela na prancheta. Pela janela as luzes da rua, fracas
e escassas em tempos de racionamento, o vento assobiando e
a lua semi-oculta pelas nuvens.
Peguei
a correspondência do chão, que não era
muita, coloquei em cima da mesa e fui à cozinha fazer
chá.
— Açúcar, Lídia?
— Bastante.
Ela pegou a xícara e sentou no sofá, pondo os
pés em cima da mesa, as meias um pouco grandes. Ela
lembra Mia Farrow quando Mia Farrow tinha trinta e cinco anos:
— Agora conta do Tomás.
Olhei para fora, o peito apertado, os maxilares duros, pus
o dedo na boca e arranquei um pedaço da cutícula:
— Não tenho a menor vontade de falar sobre esse
assunto.
— Você quer que eu fique aqui mais dois dias fingindo
que não aconteceu nada? Já fiz isso hoje a tarde
inteira.
Suspirei:
— Não sei porquê aconteceu tudo. Não
sei mesmo. Eu tive uma fase séria de instabilidade.
— E aí?
— Lembra de hoje à tarde descendo as escadas?
Foi logo que eu comecei a sentir a presença de alguma
coisa perto de mim. Eu andava nervosa, as coisas não
estavam indo bem, eu dormia mal, passava o dia mal, tinha
pesadelos e aí comecei a brigar com Tomás por
qualquer coisa. Todo dia tinha uma discussão.
— E foi você quem terminou?
— Não, foi ele.
— E você contou da sensação de ter
alguém atrás de você?
— Não....eu ia contar, mas Tomás é
tão cético...
— Falou com ele depois?
— Tentei. Deixei um monte de recados que ele nunca deu
retorno. Para falar com ele em casa tem de passar pela secretária
eletrônica e no trabalho pela secretária não-eletrônica.
Se eu ligar para o celular cai sempre na caixa postal.
Olhei
de novo para a janela, para o escuro lá fora, para
lugar nenhum, alcancei um pacote de bolachas que estava em
cima da mesa, peguei uma e esfarelei-a, lentamente, no cinzeiro:
— Não sei o que dizer Lídia. Não
entendi o que aconteceu. E eu queria tanto saber o que foi.
— Olha para mim, Júlia, e presta bastante atenção:
eu moro em uma Ilha quase selvagem. Nela conheci e contatei
a alma das coisas ditas invisíveis e inanimadas e aprendi
que todas elas, sem exceção, estão vivas
apesar das aparências em contrário. E todas têm
o seu lado negro. Quando mudei para lá eu não
conhecia ninguém, não tinha com quem conversar.
Fora de temporada a Ilha é um lugar meio desabitado.
Daí que eu ficava andando à toa, de madrugada,
pelas praias. Não existe o mais remoto risco de assalto,
por um motivo muito simples: a única saída para
o continente é pela balsa. E na entrada da balsa está
o posto policial.
Ela
pegou um cigarro e continuou:
— Aqui em São Paulo você sai, encontra
amigos, ri, brinca, e até se refugia de si mesma se
for o caso. Lá não. Você está sozinha
com você. Então aprendi a conversar com a natureza.
Isso aguçou meus ouvidos, abriu minha visão,
ativou minha percepção. Não sei se você
entende.
— Entendo.
— Hoje à tarde, quando a gente estava descendo
a escada para pegar o ônibus, vi uma sombra atrás
de você que se assemelhava a um demônio. Não
me pergunte como eu sei que era um demônio, eu apenas
sei. Aquele não era o momento de falar sobre demônios,
por isso eu não estiquei a conversa.
— Demônios?
— Seres que carregam em si o mal. Algumas pessoas parecem
carregar consigo a marca, a respiração de um
demônio, a energia de um demônio, senão
o próprio demônio mesmo. Um demônio antigo
que devasta cidades, mares, montanhas, continentes. Que vive
nas trevas, como é próprio desses seres, e que
destrói tudo que pode. E porque algumas pessoas se
assemelham a eles....É a única maneira delas
viverem, Júlia, e passa pelo mal absoluto.
— Mal absoluto?
— Nem sei porque eu falei isso. Mas, olha, vamos destruir
essa sombra que eu vi hoje,essa coisa.
— Como?
— Pega um lápis, um papel, e desenhe um demônio
como você imagina que ele deve ser.
— Nem preciso pensar. Um cão preto, grande, de
olhos vermelhos. Sentei à prancheta, peguei um canson
e comecei a desenhar, sem nenhuma pressa. Quando ficou pronto
levei um susto com o que vi e entreguei o papel à Lídia.
Ela pegou, puxou a luminária e examinou-o atentamente:
— Você o criou, Júlia, deu-lhe uma forma
e um espaço físico. Agora ele não é
mais a sombra que eu vi à tarde, agora ele é
este cão aqui. Queime o desenho. É assim que
se destrói demônios. Aí ele desaparecerá
da sua vida. Mas tem de queimá-lo fora de casa. Em
qualquer outro lugar que não seja aqui.
— Entendi. Em qualquer lugar que eu ache conveniente?
— Isso mesmo. Não precisa ser agora. Qualquer
dia. Ah..! E nunca olhe diretamente nos olhos dele depois
da meia-noite, caso você o encontre por aí, tá?
— Não olhar nos olhos dele???
— Quando a luz dos olhos de uma criatura das trevas
é muito intensa, pode te cegar. Agora põe o
cd novo da Zélia Duncan que eu ainda não conheço.
Uáááá..que sono....
* * * * *
As
manhãs de inverno em São Paulo já foram
bem mais frias e enevoadas. Abri a porta do terraço
do quarto com a manta nas costas e uma xícara de café
bem quente na mão. Acendi um cigarro e fiquei ali fumando,
os olhos fixos no fragmento de cidade à minha frente,
como se temesse perdê-la e precisasse decorar cada detalhe.
—
Quer um pedaço de bolo?
Levei um susto desnecessário. Era a Lídia, claro,
e ela bem que podia ter feito algum ruído para avisar
que estava chegando.
— Que susto, Lídia! Aonde você achou bolo?
—Muito bom esse bolo...hum...bom mesmo. Eu que fiz.
—Ah...tá...Bom, eu prefiro pãozinho. Com
manteiga.
— Mal-educada.
— Aliás nem pão eu vou comer porque já
está quase na hora do almoço. Acho melhor almoçar
de uma vez e depois ir fazer aquelas fotos que eu não
fiz ontem. Você vem comigo?
— Vou, claro.
Almoçamos,
pegamos o carro e saímos.
— Vou fazer as fotos na praça Ramos de Azevedo.
— Porque não na rua dos Ingleses?
— Acho que o "meu" demônio está
rondando aquele lugar. Acho que ele não quer que eu
faça fotos lá. Deve ter alguma coisa que não
pode ser vista ou revelada. Só volto lá para
matá-lo.
— Você está brincando?
— Claro que estou, Lídia.
Não
estava. Nunca falei tão sério em toda minha
vida como naquela hora.
—
Ah, bom.
— Deixa ver se acho uma vaga por aqui pra estacionar.
— Ali tem uma.
— É mesmo.
A
luz estava perfeita, do jeito que eu queria. Click, click.
Ramos de Azevedo vislumbrou, traçou e erigiu a imponência
desta cidade. Fez da sua alma um pedaço da dela quando
desenhou-a com delicadeza e sobriedade. Um século depois
São Paulo se vulgarizou, cheia daqueles prédios
medonhos da Avenida Paulista e adjacências, com janelas
estreitas, que não abrem, vidros fumês ou azuis,
de extremo mau gosto. Ramos de Azevedo era genial na sua mistura
de estilos. Ele vivia num tempo mais denso e menos fútil.
— Do jeito que as coisas vão, Lídia, honestamente,
às vezes fico com medo de acordar e ler no jornal que
vão aterrar o vale do Anhangabaú ou demolir
a Galeria Prestes Maia.
— Eu também.
Click, click.
— Vou fazer umas fotos com a Leica porque ela tem uma
definição extraordinária.
— Você deve ser a única pessoa deste hemisfério
que ainda fotografa com uma Leica.
— O que você tem contra a Leica? Ela te fez alguma
coisa?
Click, click, click.
— Acabei, podemos ir.
Ao nosso lado passaram duas moças varrendo a calçada,
o caminhão jogando água na ruas, os vagabundos
e bêbados habituais dos sábados à tarde,
os cães magros do centro da cidade que acompanham os
catadores de papéis e latas.
Lídia fechou a porta do carro e abriu o vidro:
— Ainda prefiro os postes daquela escada.
Fingi que não ouvi e liguei o motor.
* * * * *
E
me vi num outro sábado à tarde, sentada no chão
com um livro aberto sobre os joelhos, lendo alto distraidamente,
enquanto Tomás arrumava os papéis da gaveta
da escrivaninha. De repente ele parou a arrumação
e começou a prestar atenção no que eu
lia. Então veio até onde eu estava, ajoelhou
ao meu lado e ternamente tirou minha franja da frente dos
olhos, ajeitando-a do lado:
— Promete que vai me amar pra sempre Júlia?
* * * * *
—
Vou amar ele pra sempre, Lídia.
— Pára naquele boteco para eu comprar cigarro
que o meu acabou. Parei. Assim que ela entrou no bar ouvi
um barulho esquisito. Olhei para os lados e nada. Mas quando
bati os olhos no retrovisor vi, a meio quarteirão,
um cão preto rosnando. As orelhas em pé, os
olhos vermelhos faiscando, como eu o havia desenhado. Olhei
de novo pelo espelho e tive uma tontura forte, uma mistura
de ansiedade, medo e mais alguma coisa que não consegui
identificar. Minha cabeça pesou, a rua saiu do lugar,
parecia que eu estava escorregando do assento para o chão,
agarrei a direção e grossas gotas de suor escorreram
pela minha testa.
— Abre a portaaaaa!!!
O grito da Lídia fez com que tudo voltasse ao normal
e a tontura passasse instantaneamente.
— Júlia, o que aconteceu?
Olhei para trás. Não havia mais nada. Coisa
nenhuma. Ele se fora.
— O cachorro, Lídia...
— Que cachorro?
— Como, que cachorro? Aquele que eu desenhei, claro.
Onde ele foi parar? Estava aí até agora.
— Calma, Júlia.
— Você tem certeza de que não viu ele?
— Eu não poderia vê-lo de jeito nenhum.
É o seu cão. Só você o vê.
— E agora? O que eu faço? Parece que ele se materializou.
E eu que não estava levando a sério essa história.
E agora?
— Destrua-o.
* * * * *
Parei
no meio da sala, olhei para fora e com uma voz que nem parecia
ser a minha, falei pausadamente disse: acabou, Tomás.
Ele estava de costas para mim, debruçado na janela,
imóvel. Continuei: vou embora, Tomás. Ele não
disse nada, não fez nenhum gesto para me deter, olhei
os livros no sofá, o cachimbo, a lata de fumo da Virgínia,
o isqueiro, que embora dele, tinha o meu nome gravado, o cálice
de licor, o jornal já lido, a lata de coca vazia em
cima da mesa, minha cabeça começou a pesar,
eu queria que ele dissesse: Júlia, fique comigo. Mas
ele não disse nada. Lá fora me esperava um céu
de tempestade, pesado, silencioso, peguei minha bolsa, abri
a porta,e quando cheguei à rua as nuvens compactas
se abriram sobre mim, molharam meus cabelos, minhas roupas,
meu rosto, meu tênis. Uma chuva insidiosa e negra, grossos
pingos de carbono deslizaram sobre os meus braços,
grossos pingos de óleo saíram dos meus olhos,
um contacto de crateras ferruginosas e ácidas, a poética
linguagem da garoa da cidade se esvaiu de vez, um lento rio
de lodo descia sobre o meu rosto, estranhei as pessoas andando
ao meu lado, como se eu estivesse em outra cidade, outro país,
outro tempo, os prédios mudando de lugar, vagarosos,
calcinados, incinerados, apenas esqueletos de prédios
e entre eles eu passava com o corpo doído, dilacerado,
cinzento.
Andei
muito, andei a noite inteira e adormeci em um terreno baldio
nos arredores da cidade. No dia seguinte acordei suja, machucada
e febril.
* * * * *
Fiz
uma bagunça pela casa à procura do desenho do
cão. Abri armários, gavetas, tirei coisas e
espalhei pelo chão, esparramei pastas e envelopes na
mesa, as narinas abrindo e fechando num movimento de fúria:
então é verdade...ele existe mesmo! Um calor
crescia no meu peito, os dentes cerrados: cadê o desenho?
Minha cabeça pesava uma tonelada, os músculos
enrijecidos, de repente uma queda de voltagem, as luzes do
apartamento diminuíram, aumentaram,
diminuíram outra vez:
—
Júlia, olha! Achei!
E lá veio minha prima com o desenho.
— Onde ele estava?
— Dentro de um livro, em cima da mesa. Vi uma borda
de papel aparecendo, abri o livro e lá estava ele.
Olhei
atentamente.
Igualzinho
ao cão que estava parado na calçada. Peguei
a mochila e coloquei o papel dentro do caderno de anotações.
As luzes diminuíram outra vez e um clarão vermelho
iluminou a sala. Dei um grito:
— Lídia, o que foi esse clarão?
— Clarão???
— Entendi... Está na hora. Eu desenhei um demônio
e agora tenho de destrui-lo.
— Júlia, olha...
Eu tremia de raiva. Peguei a mochila e as chaves do carro
que estavam em cima da mesa.
— Vou dar um fim nele. Já volto, Lídia.
— Ô...espera aí...Você não
vai medir forças com ele, vai? Quando eu disse destruir,
eu quis dizer PÔR FOGO NO PAPEL. Só isso. Entendeu?
— Não tem como destruir sem medir forças.
Isso não existe. Um demônio é um demônio,
uma vez que sou forçada a admitir sua existência.
Seja lá como for ou quem for essa criatura, vou resolver
isso hoje! Agora!
Abri
a porta e chamei o elevador.
— Júliaaaaaaa..espera aí, que eu preciso...
— Eu já volto.
* * * * *
Quando
saí com o carro vi o cão do outro lado da rua.
Ele olhou de relance para os faróis e nesse instante
um curto-circuito queimou os dois. Olhei para ele espumando
de raiva.
Mesmo com as lâmpadas dos faróis queimadas atravessei
avenidas e viadutos até chegar à rua dos Ingleses.
Que estava cheia de carros por causa da segunda sessão
do teatro. Olhei o relógio do painel: mais uma meia
hora para terminar. Aí então...
Estacionei
e lá estava ele, o demônio veloz, de olhos faiscantes,
esperando por mim. Sentado sobre as patas traseiras, o pêlo
brilhando, o dorso ereto e altivo, os caninos à mostra.
Chegara antes do que eu. Parecia bem maior do que o cão
que eu vira à tarde pelo retrovisor do carro. Quando
acabasse a sessão, as pessoas pegariam seus carros
e iriam embora e aí, sim, eu ia ficar cara a cara com
ele.
Já
que eu ia ter de esperar a rua esvaziar fui tomar um café
na lanchonete-caverna. Resolvi ficar na mesa perto da porta.
Pus a mochila numa cadeira e me preparava pra sentar na outra,
quando senti alguma coisa se movendo atrás de mim.
Virei, olhei para a parede e dei de cara com a lagartixa.
Tive absoluta certeza de que era a mesma do dia anterior.
Gostei de reencontrá-la, parecia uma velha amiga:
— Oi, lagartixa!
Vagarosamente fui até o balcão e ela me acompanhou
pela parede. Quando percebi que eu não a assustava,
cheguei mais perto. Quando me aproximei bastante vi que ela
segurava alguma coisa na boca. Que brilhava. Peguei o café,
voltei bem devagar, e a lagartixa voltou comigo. Quando sentei
e pus a xícara em cima da mesa, ela abriu a boca e
soltou um alfinete dourado que caiu no chão. Não
acreditei. Abaixei para pegá-lo e vi que era de ouro
puro. Como coubera na sua boca tão pequenina? Segurei-o
com cuidado e espetei-o na camiseta. Acho que entendi que
era para mim, um presente da pequena lagartixa. Passei o dedo
carinhosamente pelas suas costas geladas e ela sumiu por uma
fresta da parede. Do lado de fora o cão rosnava baixinho,
inquieto, farejando o ar.
Há
quanto tempo seus olhos vermelhos me seguiam pelas ruas? Há
quanto tempo brilhavam pelas noites paulistanas atrás
de mim, sem que eu percebesse?
Acabou
a segunda sessão, as luzes do teatro se apagaram, os
carros foram saindo aos poucos, o empregado da lanchonete
passou por mim com uma vassoura, o pipoqueiro pegou seu carrinho,
desceu a rua e os ambulantes habituais também já
estavam a caminho das suas respectivas casas.
Fui até a porta.
Lentamente.
Quando
a rua ficou totalmente deserta, me dirigi devagar ao patamar
da escadaria e tomei fôlego antes de começar
a descê-la. Atrás de mim, vinha o cão.
Ia começar o meu encontro com o espírito das
trevas.
Dali para a frente eu não poderia mais olhar para trás
senão correria o risco de ficar cega com o brilho dos
seus olhos. Pelo menos foi o que a Lídia dissera. Ou
não dissera nada e eu estava
imaginando isso?
Comecei
então a descer. Devagar. Temerosa. O coração
disparado. Nisso vi a lagartixa passar pelo corrimão
de pedra e tive certeza que ela passou para sinalizar que
tudo estava indo bem. Depois de um pequeno lance a escadaria
se bifurca em duas, uma à direita e outra à
esquerda. Aí chega-se a um segundo patamar aonde elas
continuam bifurcadas e só no último unem-se
e dão lugar à uma magnífica e imponente
escada de pedra, larga e ladeada por oito postes antigos.
Nos cantos escuros dos degraus, alguns mendigos dormiam embrulhados
em cobertores imundos e malcheirosos.
O celular tocou, deixei que caísse na caixa postal.
Tocou mais uma vez. Desliguei.
Quando
comecei a descer o segundo lance senti um arrepio que percorreu
todo o meu corpo. Imagens desconexas começaram a aparecer
diante dos meus olhos: pessoas desfocadas, esquálidas,
gritando e segurando o rosto com as duas mãos. Impressionante,
mas não o suficiente para me fazer desistir. À
minha esquerda, uma luz muito forte foi acesa. Momentaneamente
fiquei cega e cobri os olhos com a mão. O cão,
lá no alto, rosnou de prazer. A luz vinha de uma casa
antiga, cujas janelas, que são muitas e em vários
andares, dão para a escada. Uma construção
típica do começo do século XX, em um
bairro, hoje considerado, de classe média baixa. O
pé direito bem alto, um corredor estreito e comprido,
cheia de janelas laterais. Então caí em mim
e percebi que a luz não vinha da casa coisa nenhuma.
Que eram apenas os olhos daquela criatura que os vidros refletiam
e projetavam. Me deu vontade de olhar para trás e ver
se ele havia se transformado. A julgar pela sombra, sim. Mas
eu não podia fazer isso.
Depois
de um segundo de silêncio o cão começou
a uivar. Primeiro baixo, depois foi gradativamente aumentando.
Devia ser meia-noite e meia. O céu começou a
ficar denso, pesado, e dali a pouco ia começar a chover.
Pingos grossos começaram a cair, aqui e ali. E se tudo
desse errado? Se as coisas não saíssem como
eu havia imaginado?
Um
rosnado muito alto veio de uma noite ancestral, antiqüíssima,
que existia dentro de mim. Fiquei atordoada. Abaixei, peguei
o caderno que estava na mochila, tirei de dentro dele o desenho
e tentei protegê-lo da chuva colocando-o nas dobras
do casaco. Um urro medonho estremeceu a escadaria. O cão,
que até então estivera parado no topo, começou
a descer os degraus. Vinha ao meu encontro. Eu via seu corpo
refletido nas janelas e, olhando para elas, acompanhava seus
movimentos. Ele estava perigosamente perto e eu não
podia mais protelar o que tinha de fazer. Abaixei outra vez,
acendi o isqueiro e pus fogo no papel. Apesar da chuva, as
chamas subiram. Enormes. Ouvi outro urro. Mais demorado e
mais próximo. O cão deu um salto no espaço,
foi ficando bem maior, projetou-se pelas vidraças,
cada pedaço do corpo ocupando uma delas, depois os
vidros começaram a se quebrar, um a um, e os estilhaços
foram caindo pelos patamares, corrimões e degraus da
escada, fazendo com que os mendigos ali deitados, se levantassem
depressa, assustados, e saíssem correndo.
Quando
vi os cacos de vidro a meus pés, entendi que ali a
coisa estava terminando. E que, talvez, eu não tivesse
mais saída. Trêmula, tirei o alfinete da camiseta
e cravei no desenho em chamas, bem no meio dos olhos do cão.
Um barulho ensurdecedor ecoou pelo bairro inteiro. Um barulho
que vinha da terra, como se ela estivesse se abrindo. Senti
um hálito quente no meu pescoço e uma gota de
saliva escorreu por ele. Gritei. Alto e forte. Muito alto
e muito forte.
E
me virei.
No
alto da escadaria Tomás segurava um revólver:
pam, pam, pam.
O
papel terminou de queimar, a lagartixa passou rápida,
abocanhou o alfinete de ouro e levou-o com ela. Fui abaixando
devagar, tremendo muito e sentei em um dos degraus. Dei um
tapa com força numa poça ao meu lado. A água
espirrou longe.
Tomás
desceu correndo e me abraçou:
— Júlia, eu estou aqui. Vamos embora senão
você vai pegar uma gripe. Levantamos e começamos
a subir a escada, tomando o cuidado de desviar do cão
morto. |