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"Ora, tenho tido tão inteira confiança no poder da palavra que, por
momentos, acreditei possível dar corpo, na sua própria imaterialidade,
às fantasias que tentei descrever" .
Edgar Allan Pöe
Logo depois do almoço peguei minha mochila, um monte de filmes de diferentes asa, a máquina fotográfica, pus a jaqueta cáqui de capuz e atravessei, de ônibus, boa parte do centro da cidade para chegar até aqui. Garoava muito, uma garoa antiga e ininterrupta. E era sexta-feira. Há uma agitação maior no ar às sextas-feiras. O trânsito fica mais pesado e lento, há mais gente circulando, com ou sem chuva.

Parei em frente ao hospital infantil que existe na rua dos Ingleses, ali onde ela alarga um pouco, quase virando uma espécie de praça, na verdade um canteiro central maior do que o comum, onde se concentra a turma que vende comida. Do outro lado, em frente ao hospital, está a escadaria que liga a rua dos Ingleses à Treze de Maio. E à esquerda da escadaria, fica o Teatro. Olhei a sujeira que os ambulantes fazem vendendo pastéis, pedaços de pizza, hot-dog e fiquei mal-humorada. Se fosse apenas um vendendo doces, ou o pipoqueiro, tudo bem. Mas, não. São vários. O que significa vários cestos de lixo. E o excesso que deles cai, espalha-se pelo chão, provavelmente criando focos de infecção.

Eu tinha de fotografar um poste antigo de São Paulo. Escolhi esse local por causa da escada que acentua o clima romântico que eu procuro. O centro da cidade está cheio desses postes, mas aqui, dispostos ao longo da escadaria, dão uma sensação de mistério.

Abri a mochila, tirei a Asahi e comecei, click, click, desviando do lixo, atenta ao barulho do filme girando. Fiquei perambulando por ali, click, click, olhando torto para os ambulantes e suas pilhas de lixo, que são o mais perfeito retrato do caos desta cidade. De quem nela habita e de quem a governa.

Troquei o filme, a garoa apertou, pus o capuz e me senti feliz por estar no meio do frio e da umidade. Achei que o verão ia durar para sempre e a sensação de calor eterno, até uns dias atrás, havia me apavorado. Meus lábios estavam ressecados, a garoa apertou mais um pouco, o dia escureceu muito e uma fumaça suave, de filme europeu, passou por mim. Ou, o que é mais provável, pela minha imaginação.

Click, click, girei o corpo e no visor apareceu um mendigo encostado exatamente no primeiro poste, ao lado da escada. Como é que ele foi parar ali? Droga. Esperei um pouco, quem sabe com a garoa aumentando ele ia embora logo. De fato, dez minutos depois, ele se foi. Enquadrei de novo o poste e quando fiz click um pedaço de maçã passou voando pela frente do visor. Olhei para o lado de onde tinha vindo o pedaço de maçã e um menino de uns seis anos, mais ou menos, repreendido pela mãe, fazia cara de choro. Mudei de ângulo, agora de olho na mureta de pedra e nos galhos secos das árvores, ambos molhados de chuva. Quando encostei a máquina no rosto, o celular começou a tocar. E meu celular está programado para tocar bem alto e fazer muito barulho.

— Lídia? Lídiaaaaaaaaaaa! Fala mais alto!

A rua inteira olhou para mim. Disfarcei e virei a cabeça para o alto, para o cartaz do teatro: Only You, de Consuelo de Castro, a moça que se apaixona por um escritor em crise. A voz da Lídia vinha entrecortada e a minha devia estar do mesmo jeito:

— Você chegou agora? Olha, estou na rua dos Ingleses. Sabe o teatro Ruth Escobar? Ao lado tem numa lanchonete. Vou te esperar lá. É um lugar pequeno e escuro, parece uma caverna.

Guardei o celular e peguei a máquina de novo. Assim que consegui um enquadramento que me pareceu quase, mas quase perfeito, um caminhão de bebidas estacionou no meio-fio e encobriu o poste.

Desisto. Fica para amanhã.

Entrei na lanchonete-caverna, pedi um café e sentei à uma mesa perto da entrada. Tão logo me acomodei o caminhão descarregou os dois últimos engradados e se preparava para sair. Fiz menção de levantar mas parei, com a xícara de café na mão, a meio caminho da boca: por hoje chega mesmo, não fotografo mais nada. Tomei o café sem pressa, sossegada, cheia de prazer. Depois tirei da mochila meu caderno de anotações, um lápis, e comecei a desenhar a rua, imaginando-a sem os ambulantes, sem aquela sujeira de gordura, lixo e molhos caídos no chão. Olhei o desenho. Ficou bom. Fechei o caderno e quando abaixei para guardá-lo, dei de cara com uma pequena lagartixa.

Completamente alheia a mim e a tudo, ela subia pela parede. Em silêncio, quase sem respirar, peguei a máquina de cima da mesa e click! Apenas a parede, nada além da parede. Até eu ajustar o foco, a lagartixa se fora. Se a Asahi estivesse no automático eu não teria perdido a foto da lagartixa. E ela era tão bonita, tão familiar, até achei que ia conversar comigo.

Nisso Lídia chegou. Com seus cabelos claros, lisos e finos, de uma cor indefinida, que sugerem um campo de trigo ao pôr-do-sol no outono. Visto na tela de um cinema, claro. Ela sorriu e gritou:
— Oi, brima! Ajeitou o óculos no nariz, gesto esse que caracteriza e ressalta seu ar inteligente e atento:
— Demorei?
— Não, acho que não. Falar a verdade nem percebi o tempo passar. Foi bem de viagem?
— Fui. A estrada estava legal.
— Achei que você fosse chegar mais tarde. Cadê a sua mala?
— E ia mesmo, mas acabei vindo antes. Mala? Para passar dois dias e meio? Eu trouxe só as coisas imprescindíveis: três calcinhas, três meias, escova de dentes e duas camisetas. Qualquer emergência eu uso uma roupa sua.
— Claro. Usa minhas roupas, fuma meus cigarros, dorme na minha cama....
— Acaricio seu gato e namoro um pouco seu namorado....Rá!Rá!Rá! Vou pegar um café. O seu acabou? Quer outro?
— Quero.
Ela foi buscar os nossos cafés e eu sabia a pergunta que viria a seguir, quando ela voltasse com as xícaras:
— Como vai o Tomás?
Fiz uma pausa longa e constrangedora, olhei para o vazio, prendi a respiração, apertei os lábios e abaixei a voz:
— Acabou, Lídia.
— Acabou? Como assim, acabou? Não acredito! Me recuso a acreditar nisso!

Meu espírito desapareceu dali e vagou pela cidade inteira, por todas as suas ruas e vielas, pelo sol às vezes implacável de janeiro, pelas noites cálidas de março e abril, pelo vento do outono, pela umidade do inverno. Onde estaria Tomás? Começou a doer, a sangrar, quis sair dali correndo para algum lugar, mas não sabia que lugar seria esse.

— Acorda, Júlia! O que você quer dizer com “acabou”?
— Isso, Lídia. Acabou.
— Porquê? Qual a razão, posso saber?
— Não sei direito, Lídia, não sei mesmo.
— Acabou e você não sabe dizer porquê?
— É. Não sei.

Nem olhei para o cinzeiro em cima da mesa. Joguei a bituca do cigarro no chão e amassei com o tênis. A imagem de Tomás estava ali, flutuando na fumaça do café. Etérea. Lídia suspirou fundo, enrolou o cachecol e olhou para a mesa:

— Este cigarro mentolado é seu?
— É. Acabo de ficar viciada nele de novo. A primeira vez foi quando comecei a fumar, aos dezessete anos. Agora voltou de novo essa coisa. Estou fumando duas marcas alternadamente. Três carltons e um mentolado.
— Vou perguntar pela terceira vez: porque acabou?

(juro que vou amar você sempre, e um trompete tocou tão sussurrado e tão gostoso que a resposta de Tomás ao que eu havia acabado de jurar se perdeu. Ouça, ele disse, é Chet Baker tocando Retrato em branco-e-preto, afastei a cortina um pouco, uma madrugada luminosa começou a entrar no terraço daquele apartamento antigo. Passei a ponta do indicador na parede, muito de leve, como se com ela eu fizesse um risco alongado e sinuoso, continuei o risco invisível no lençol e depois pelas costas de Tomás, um cheiro bom e forte de tabaco na respiração, um perfume de gardênia no ar, ele apertou minha cabeça no seu peito e riu: puxa, Júlia! sempre quero acariciar seus cabelos e nunca acho muita coisa, porque você deixa assim tão curto? Passei a mão neles, claros, densos, cheios de histórias e segredos, de trajetos, lacunas e perspectivas. E também de enganos. Jura que você nunca vai me abandonar? e ele beijou a ponta do meu nariz, um pouco inseguro, não vou, juro que não vou, juro mesmo, porque eu te abandonaria? Ele me apertou mais forte e começou a amanhecer de um jeito sorrateiro naquele terraço, naquele quarto, naquele apartamento, árvores seculares e frondosas lá embaixo, os postes antigos debaixo delas, as folhas secas caídas pela calçada e levadas pelo vento suave da primeira hora da manhã.)

— Você tinha de insistir na pergunta, Lídia?
Fiz uma cara tão infeliz que ela ficou meio constrangida. Peguei a mochila do chão e tirei de dentro dela o caderno de anotações, numa tentativa de mudar de assunto:
— Dá uma espiada, é um esboço que eu fiz deste trecho da rua, sem os famigerados ambulantes, os carros estacionados e esse lixo todo esparramado pelo chão.
Ela observou por alguns minutos, entortou a cabeça um pouco para o lado, me olhou por cima do óculos, muito compenetrada, e falou:
— Parece um mapa rodoviário.
Peguei o caderno da mão dela e guardei.

A garoa aumentou e o silêncio momentâneo que pairou no ar fez com que os sons do interior da lanchonete ficassem mais audíveis: clec de latas de refrigerante sendo abertas, plunc da porta da geladeira se fechando, tsssss de um hambúrguer na chapa, chec de guardanapos sendo amassados. Até então estávamos só nós duas sentadas, mas aí entrou um pessoal que havia acabado de sair do teatro, rindo e falando alto, provavelmente eles estavam ensaiando alguma peça e tinham feito uma pausa para tomar lanche. Com a chegada deles a lanchonete-caverna, que já era pequena, ficou menor ainda.

A lembrança de Tomás ia e vinha, em ondas, intensa e dolorida, mordi os lábios esperando e querendo que amenizasse, a tarde escorrendo entre meus dedos e se alojando na fímbria da minha calça jeans. Fiz um esforço enorme para dizer alguma coisa culta, inteligente e interessante. Não saiu nada.

— Lídia, tenho de ir ao Itaim entregar estas fotos. Vamos?
Pagamos os cafés e saímos. Ela olhou em volta:
— Onde está seu carro?
— Não vim de carro. Vamos pegar o ônibus na Treze de Maio.

Começamos a descer a escadaria e enquanto descíamos ela olhou para trás várias vezes.
— O que foi, Lídia?
— Tive a impressão de ter visto alguém atrás de você.
Instintivamente olhei para trás mas não vi ninguém.
— Já senti isso, Lídia. Aqui mesmo.
— Quando?
— Várias vezes. Mas ha uns dez dias foi mais forte. Eu vim ao teatro e na saída fiquei parada no topo da escada olhando para baixo. Então desci uns quatro degraus, nem sei porquê, e senti algo atrás de mim. Alguém, alguma coisa, não sei dizer o que era. E o ar foi ficando denso, compacto, pesado. Um calor danado, eu sentia até a respiração forte da pessoa, da...

Nisso o ônibus entrou na Treze de Maio. Corremos meio quarteirão para chegar no ponto ao mesmo tempo que ele. Sorte que estava meio vazio e tinha lugar para sentar.

O Itaim deve ser o único bairro em São Paulo que ainda tem um cinema na rua. O pequeno Lumiére, na Joaquim Floriano, resistiu heroicamente sem nenhuma reforma ou modernização que houvesse descaracterizado o seu jeito de cinema antigo. Pela janela do ônibus dá para ver a cara da bilheteira, atrás do vidro, olhando a garoa com ar de enfado.

— Mas vai ser por pouco tempo, eu disse assim que descemos. Logo ele desaparece. Odeio andar de ônibus quando está garoando. As pessoas têm o péssimo hábito de fechar todas as janelas e fica irrespirável lá dentro. Aliás, para que janela? Daqui a pouco serão substituídas por aqueles vidros fumês que não abrem.
— Adoro seu mau-humor.
— Não estou mal-humorada. É este o prédio. Nem vou subir. Vou deixar na portaria mesmo.

Saímos do prédio, atravessamos a rua e fomos para o Joakin´s comer. Sentamos à uma mesa do lado da janela, aquela que não abre, e pedimos toneladas de hambúrgueres com cebola crua, maionese, batatas fritas e milk shake.
— Lídia, você continua trabalhando no mesmo lugar?
— Não. Deixa eu terminar de comer que já te conto.
— Entendi. Mudou de emprego de novo.
Lídia sempre teve a enorme vocação para nunca ficar mais de três meses no mesmo emprego, largar as coisas pela metade, mudar de casa e de cidade freqüentemente, sumir e reaparecer uns tempos depois. Quando ela morava em São Paulo eu me dava ao luxo de reclamar bastante e de encher bem a sua paciência, quase que todos os dias. Depois que ela mudou para a Ilha a distância suprimiu minhas rabugices ou quem sabe foi o tempo que me acrescentou um pouco de sabedoria e serenidade.
— Você? Sábia e serena? Rá!Rá!Rá!
— Eu não disse que sou. Eu disse t-a-l-v-e-z.
— Mesmo esse talvez, em você, é muito pretensioso.

* * * * *

Conheci Tomás nesta rua, faz um ano. Ele atravessou correndo, sem olhar para lugar nenhum e quando chegou na calçada deu um encontrão em mim. E lá se foi para o chão tudo que eu carregava: fichário, caderno, agenda, guarda-chuva, livros. Mas o pior mesmo foram os milhões de papeizinhos que estavam dentro disso tudo e que voaram pela rua. Ele pediu um monte de desculpas e abaixou depressa para tentar pegar o que havia caído, meio atordoado, sem saber por onde começar. Abaixei junto, admirando sua elegância e sobriedade, os cabelos perfumados. Quando acabamos de pegar tudo ele se desculpou mais uma vez e foi embora.

Três semanas depois encontrei-o casualmente na rua Marconi, engraxando os sapatos. Sentado naquelas cadeiras altas de engraxate, lendo o jornal, coisa meio antiga isso de engraxar o sapato no meio da rua lendo o jornal, me lembrou meu tio, fiquei olhando de longe, durante um bom tempo, até que resolvi fazer uma foto e na ponta do pé fui me aproximando um pouco, peguei a máquina com cuidado, click, virei de lado, click, me aproximei mais, click, click, ele me viu, deu um pulo da cadeira e veio até onde eu estava com cara de quem ia dar uma solene bronca. Tirei a máquina do rosto, ele me olhou com os olhos semicerrados, franzindo a testa. Não agüentei e caí na gargalhada.
— Eu acho que conheço você, ele disse.
— Do Itaim, faz uns vintes dias. Você derrubou minhas coisas no chão.
— Isso mesmo. Tudo bem? Você é fotógrafa?
— Sou sim.
Então fomos tomar uma coca-cola em um bar ali perto e ficamos meio embaraçados olhando um para o outro porque assim começam os grandes amores. Estava calor, eu suava muito, a boca seca, ele passou o dedo no meu rosto:
— Júlia, quero você.

* * * * *

— Esta é a minha nova casa, Lídia.
Abri a porta do apartamento, no último andar de um prédio velho mas confortável e arejado, deixando que ela entrasse primeiro. A janela da sala escancarada, as folhas secas da floreira esparramadas pelo chão, o sofá bege com uma manta xadrez em cima, a luminária amarela na prancheta. Pela janela as luzes da rua, fracas e escassas em tempos de racionamento, o vento assobiando e a lua semi-oculta pelas nuvens.

Peguei a correspondência do chão, que não era muita, coloquei em cima da mesa e fui à cozinha fazer chá.
— Açúcar, Lídia?
— Bastante.
Ela pegou a xícara e sentou no sofá, pondo os pés em cima da mesa, as meias um pouco grandes. Ela lembra Mia Farrow quando Mia Farrow tinha trinta e cinco anos:
— Agora conta do Tomás.
Olhei para fora, o peito apertado, os maxilares duros, pus o dedo na boca e arranquei um pedaço da cutícula:
— Não tenho a menor vontade de falar sobre esse assunto.
— Você quer que eu fique aqui mais dois dias fingindo que não aconteceu nada? Já fiz isso hoje a tarde inteira.
Suspirei:
— Não sei porquê aconteceu tudo. Não sei mesmo. Eu tive uma fase séria de instabilidade.
— E aí?
— Lembra de hoje à tarde descendo as escadas? Foi logo que eu comecei a sentir a presença de alguma coisa perto de mim. Eu andava nervosa, as coisas não estavam indo bem, eu dormia mal, passava o dia mal, tinha pesadelos e aí comecei a brigar com Tomás por qualquer coisa. Todo dia tinha uma discussão.
— E foi você quem terminou?
— Não, foi ele.
— E você contou da sensação de ter alguém atrás de você?
— Não....eu ia contar, mas Tomás é tão cético...
— Falou com ele depois?
— Tentei. Deixei um monte de recados que ele nunca deu retorno. Para falar com ele em casa tem de passar pela secretária eletrônica e no trabalho pela secretária não-eletrônica. Se eu ligar para o celular cai sempre na caixa postal.

Olhei de novo para a janela, para o escuro lá fora, para lugar nenhum, alcancei um pacote de bolachas que estava em cima da mesa, peguei uma e esfarelei-a, lentamente, no cinzeiro:
— Não sei o que dizer Lídia. Não entendi o que aconteceu. E eu queria tanto saber o que foi.
— Olha para mim, Júlia, e presta bastante atenção: eu moro em uma Ilha quase selvagem. Nela conheci e contatei a alma das coisas ditas invisíveis e inanimadas e aprendi que todas elas, sem exceção, estão vivas apesar das aparências em contrário. E todas têm o seu lado negro. Quando mudei para lá eu não conhecia ninguém, não tinha com quem conversar. Fora de temporada a Ilha é um lugar meio desabitado. Daí que eu ficava andando à toa, de madrugada, pelas praias. Não existe o mais remoto risco de assalto, por um motivo muito simples: a única saída para o continente é pela balsa. E na entrada da balsa está o posto policial.

Ela pegou um cigarro e continuou:
— Aqui em São Paulo você sai, encontra amigos, ri, brinca, e até se refugia de si mesma se for o caso. Lá não. Você está sozinha com você. Então aprendi a conversar com a natureza. Isso aguçou meus ouvidos, abriu minha visão, ativou minha percepção. Não sei se você entende.
— Entendo.
— Hoje à tarde, quando a gente estava descendo a escada para pegar o ônibus, vi uma sombra atrás de você que se assemelhava a um demônio. Não me pergunte como eu sei que era um demônio, eu apenas sei. Aquele não era o momento de falar sobre demônios, por isso eu não estiquei a conversa.
— Demônios?
— Seres que carregam em si o mal. Algumas pessoas parecem carregar consigo a marca, a respiração de um demônio, a energia de um demônio, senão o próprio demônio mesmo. Um demônio antigo que devasta cidades, mares, montanhas, continentes. Que vive nas trevas, como é próprio desses seres, e que destrói tudo que pode. E porque algumas pessoas se assemelham a eles....É a única maneira delas viverem, Júlia, e passa pelo mal absoluto.
— Mal absoluto?
— Nem sei porque eu falei isso. Mas, olha, vamos destruir essa sombra que eu vi hoje,essa coisa.
— Como?
— Pega um lápis, um papel, e desenhe um demônio como você imagina que ele deve ser.
— Nem preciso pensar. Um cão preto, grande, de olhos vermelhos. Sentei à prancheta, peguei um canson e comecei a desenhar, sem nenhuma pressa. Quando ficou pronto levei um susto com o que vi e entreguei o papel à Lídia. Ela pegou, puxou a luminária e examinou-o atentamente:
— Você o criou, Júlia, deu-lhe uma forma e um espaço físico. Agora ele não é mais a sombra que eu vi à tarde, agora ele é este cão aqui. Queime o desenho. É assim que se destrói demônios. Aí ele desaparecerá da sua vida. Mas tem de queimá-lo fora de casa. Em qualquer outro lugar que não seja aqui.
— Entendi. Em qualquer lugar que eu ache conveniente?
— Isso mesmo. Não precisa ser agora. Qualquer dia. Ah..! E nunca olhe diretamente nos olhos dele depois da meia-noite, caso você o encontre por aí, tá?
— Não olhar nos olhos dele???
— Quando a luz dos olhos de uma criatura das trevas é muito intensa, pode te cegar. Agora põe o cd novo da Zélia Duncan que eu ainda não conheço. Uáááá..que sono....

* * * * *

As manhãs de inverno em São Paulo já foram bem mais frias e enevoadas. Abri a porta do terraço do quarto com a manta nas costas e uma xícara de café bem quente na mão. Acendi um cigarro e fiquei ali fumando, os olhos fixos no fragmento de cidade à minha frente, como se temesse perdê-la e precisasse decorar cada detalhe.

— Quer um pedaço de bolo?
Levei um susto desnecessário. Era a Lídia, claro, e ela bem que podia ter feito algum ruído para avisar que estava chegando.
— Que susto, Lídia! Aonde você achou bolo?
—Muito bom esse bolo...hum...bom mesmo. Eu que fiz.
—Ah...tá...Bom, eu prefiro pãozinho. Com manteiga.
— Mal-educada.
— Aliás nem pão eu vou comer porque já está quase na hora do almoço. Acho melhor almoçar de uma vez e depois ir fazer aquelas fotos que eu não fiz ontem. Você vem comigo?
— Vou, claro.

Almoçamos, pegamos o carro e saímos.
— Vou fazer as fotos na praça Ramos de Azevedo.
— Porque não na rua dos Ingleses?
— Acho que o "meu" demônio está rondando aquele lugar. Acho que ele não quer que eu faça fotos lá. Deve ter alguma coisa que não pode ser vista ou revelada. Só volto lá para matá-lo.
— Você está brincando?
— Claro que estou, Lídia.

Não estava. Nunca falei tão sério em toda minha vida como naquela hora.

— Ah, bom.
— Deixa ver se acho uma vaga por aqui pra estacionar.
— Ali tem uma.
— É mesmo.

A luz estava perfeita, do jeito que eu queria. Click, click. Ramos de Azevedo vislumbrou, traçou e erigiu a imponência desta cidade. Fez da sua alma um pedaço da dela quando desenhou-a com delicadeza e sobriedade. Um século depois São Paulo se vulgarizou, cheia daqueles prédios medonhos da Avenida Paulista e adjacências, com janelas estreitas, que não abrem, vidros fumês ou azuis, de extremo mau gosto. Ramos de Azevedo era genial na sua mistura de estilos. Ele vivia num tempo mais denso e menos fútil.
— Do jeito que as coisas vão, Lídia, honestamente, às vezes fico com medo de acordar e ler no jornal que vão aterrar o vale do Anhangabaú ou demolir a Galeria Prestes Maia.
— Eu também.
Click, click.
— Vou fazer umas fotos com a Leica porque ela tem uma definição extraordinária.
— Você deve ser a única pessoa deste hemisfério que ainda fotografa com uma Leica.
— O que você tem contra a Leica? Ela te fez alguma coisa?
Click, click, click.
— Acabei, podemos ir.
Ao nosso lado passaram duas moças varrendo a calçada, o caminhão jogando água na ruas, os vagabundos e bêbados habituais dos sábados à tarde, os cães magros do centro da cidade que acompanham os catadores de papéis e latas.
Lídia fechou a porta do carro e abriu o vidro:
— Ainda prefiro os postes daquela escada.
Fingi que não ouvi e liguei o motor.

* * * * *

E me vi num outro sábado à tarde, sentada no chão com um livro aberto sobre os joelhos, lendo alto distraidamente, enquanto Tomás arrumava os papéis da gaveta da escrivaninha. De repente ele parou a arrumação e começou a prestar atenção no que eu lia. Então veio até onde eu estava, ajoelhou ao meu lado e ternamente tirou minha franja da frente dos olhos, ajeitando-a do lado:
— Promete que vai me amar pra sempre Júlia?

* * * * *

— Vou amar ele pra sempre, Lídia.
— Pára naquele boteco para eu comprar cigarro que o meu acabou. Parei. Assim que ela entrou no bar ouvi um barulho esquisito. Olhei para os lados e nada. Mas quando bati os olhos no retrovisor vi, a meio quarteirão, um cão preto rosnando. As orelhas em pé, os olhos vermelhos faiscando, como eu o havia desenhado. Olhei de novo pelo espelho e tive uma tontura forte, uma mistura de ansiedade, medo e mais alguma coisa que não consegui identificar. Minha cabeça pesou, a rua saiu do lugar, parecia que eu estava escorregando do assento para o chão, agarrei a direção e grossas gotas de suor escorreram pela minha testa.
— Abre a portaaaaa!!!
O grito da Lídia fez com que tudo voltasse ao normal e a tontura passasse instantaneamente.
— Júlia, o que aconteceu?
Olhei para trás. Não havia mais nada. Coisa nenhuma. Ele se fora.
— O cachorro, Lídia...
— Que cachorro?
— Como, que cachorro? Aquele que eu desenhei, claro. Onde ele foi parar? Estava aí até agora.
— Calma, Júlia.
— Você tem certeza de que não viu ele?
— Eu não poderia vê-lo de jeito nenhum. É o seu cão. Só você o vê.
— E agora? O que eu faço? Parece que ele se materializou. E eu que não estava levando a sério essa história. E agora?
— Destrua-o.

* * * * *

Parei no meio da sala, olhei para fora e com uma voz que nem parecia ser a minha, falei pausadamente disse: acabou, Tomás. Ele estava de costas para mim, debruçado na janela, imóvel. Continuei: vou embora, Tomás. Ele não disse nada, não fez nenhum gesto para me deter, olhei os livros no sofá, o cachimbo, a lata de fumo da Virgínia, o isqueiro, que embora dele, tinha o meu nome gravado, o cálice de licor, o jornal já lido, a lata de coca vazia em cima da mesa, minha cabeça começou a pesar, eu queria que ele dissesse: Júlia, fique comigo. Mas ele não disse nada. Lá fora me esperava um céu de tempestade, pesado, silencioso, peguei minha bolsa, abri a porta,e quando cheguei à rua as nuvens compactas se abriram sobre mim, molharam meus cabelos, minhas roupas, meu rosto, meu tênis. Uma chuva insidiosa e negra, grossos pingos de carbono deslizaram sobre os meus braços, grossos pingos de óleo saíram dos meus olhos, um contacto de crateras ferruginosas e ácidas, a poética linguagem da garoa da cidade se esvaiu de vez, um lento rio de lodo descia sobre o meu rosto, estranhei as pessoas andando ao meu lado, como se eu estivesse em outra cidade, outro país, outro tempo, os prédios mudando de lugar, vagarosos, calcinados, incinerados, apenas esqueletos de prédios e entre eles eu passava com o corpo doído, dilacerado, cinzento.

Andei muito, andei a noite inteira e adormeci em um terreno baldio nos arredores da cidade. No dia seguinte acordei suja, machucada e febril.

* * * * *

Fiz uma bagunça pela casa à procura do desenho do cão. Abri armários, gavetas, tirei coisas e espalhei pelo chão, esparramei pastas e envelopes na mesa, as narinas abrindo e fechando num movimento de fúria: então é verdade...ele existe mesmo! Um calor crescia no meu peito, os dentes cerrados: cadê o desenho? Minha cabeça pesava uma tonelada, os músculos enrijecidos, de repente uma queda de voltagem, as luzes do apartamento diminuíram, aumentaram,
diminuíram outra vez:

— Júlia, olha! Achei!
E lá veio minha prima com o desenho.
— Onde ele estava?
— Dentro de um livro, em cima da mesa. Vi uma borda de papel aparecendo, abri o livro e lá estava ele.

Olhei atentamente.

Igualzinho ao cão que estava parado na calçada. Peguei a mochila e coloquei o papel dentro do caderno de anotações. As luzes diminuíram outra vez e um clarão vermelho iluminou a sala. Dei um grito:
— Lídia, o que foi esse clarão?
— Clarão???
— Entendi... Está na hora. Eu desenhei um demônio e agora tenho de destrui-lo.
— Júlia, olha...
Eu tremia de raiva. Peguei a mochila e as chaves do carro que estavam em cima da mesa.
— Vou dar um fim nele. Já volto, Lídia.
— Ô...espera aí...Você não vai medir forças com ele, vai? Quando eu disse destruir, eu quis dizer PÔR FOGO NO PAPEL. Só isso. Entendeu?
— Não tem como destruir sem medir forças. Isso não existe. Um demônio é um demônio, uma vez que sou forçada a admitir sua existência. Seja lá como for ou quem for essa criatura, vou resolver isso hoje! Agora!

Abri a porta e chamei o elevador.
— Júliaaaaaaa..espera aí, que eu preciso...
— Eu já volto.

* * * * *

Quando saí com o carro vi o cão do outro lado da rua. Ele olhou de relance para os faróis e nesse instante um curto-circuito queimou os dois. Olhei para ele espumando de raiva.

Mesmo com as lâmpadas dos faróis queimadas atravessei avenidas e viadutos até chegar à rua dos Ingleses. Que estava cheia de carros por causa da segunda sessão do teatro. Olhei o relógio do painel: mais uma meia hora para terminar. Aí então...

Estacionei e lá estava ele, o demônio veloz, de olhos faiscantes, esperando por mim. Sentado sobre as patas traseiras, o pêlo brilhando, o dorso ereto e altivo, os caninos à mostra. Chegara antes do que eu. Parecia bem maior do que o cão que eu vira à tarde pelo retrovisor do carro. Quando acabasse a sessão, as pessoas pegariam seus carros e iriam embora e aí, sim, eu ia ficar cara a cara com ele.

Já que eu ia ter de esperar a rua esvaziar fui tomar um café na lanchonete-caverna. Resolvi ficar na mesa perto da porta. Pus a mochila numa cadeira e me preparava pra sentar na outra, quando senti alguma coisa se movendo atrás de mim. Virei, olhei para a parede e dei de cara com a lagartixa. Tive absoluta certeza de que era a mesma do dia anterior. Gostei de reencontrá-la, parecia uma velha amiga:
— Oi, lagartixa!
Vagarosamente fui até o balcão e ela me acompanhou pela parede. Quando percebi que eu não a assustava, cheguei mais perto. Quando me aproximei bastante vi que ela segurava alguma coisa na boca. Que brilhava. Peguei o café, voltei bem devagar, e a lagartixa voltou comigo. Quando sentei e pus a xícara em cima da mesa, ela abriu a boca e soltou um alfinete dourado que caiu no chão. Não acreditei. Abaixei para pegá-lo e vi que era de ouro puro. Como coubera na sua boca tão pequenina? Segurei-o com cuidado e espetei-o na camiseta. Acho que entendi que era para mim, um presente da pequena lagartixa. Passei o dedo carinhosamente pelas suas costas geladas e ela sumiu por uma fresta da parede. Do lado de fora o cão rosnava baixinho, inquieto, farejando o ar.

Há quanto tempo seus olhos vermelhos me seguiam pelas ruas? Há quanto tempo brilhavam pelas noites paulistanas atrás de mim, sem que eu percebesse?

Acabou a segunda sessão, as luzes do teatro se apagaram, os carros foram saindo aos poucos, o empregado da lanchonete passou por mim com uma vassoura, o pipoqueiro pegou seu carrinho, desceu a rua e os ambulantes habituais também já estavam a caminho das suas respectivas casas.
Fui até a porta.
Lentamente.

Quando a rua ficou totalmente deserta, me dirigi devagar ao patamar da escadaria e tomei fôlego antes de começar a descê-la. Atrás de mim, vinha o cão. Ia começar o meu encontro com o espírito das trevas.
Dali para a frente eu não poderia mais olhar para trás senão correria o risco de ficar cega com o brilho dos seus olhos. Pelo menos foi o que a Lídia dissera. Ou não dissera nada e eu estava
imaginando isso?

Comecei então a descer. Devagar. Temerosa. O coração disparado. Nisso vi a lagartixa passar pelo corrimão de pedra e tive certeza que ela passou para sinalizar que tudo estava indo bem. Depois de um pequeno lance a escadaria se bifurca em duas, uma à direita e outra à esquerda. Aí chega-se a um segundo patamar aonde elas continuam bifurcadas e só no último unem-se e dão lugar à uma magnífica e imponente escada de pedra, larga e ladeada por oito postes antigos. Nos cantos escuros dos degraus, alguns mendigos dormiam embrulhados em cobertores imundos e malcheirosos.
O celular tocou, deixei que caísse na caixa postal. Tocou mais uma vez. Desliguei.

Quando comecei a descer o segundo lance senti um arrepio que percorreu todo o meu corpo. Imagens desconexas começaram a aparecer diante dos meus olhos: pessoas desfocadas, esquálidas, gritando e segurando o rosto com as duas mãos. Impressionante, mas não o suficiente para me fazer desistir. À minha esquerda, uma luz muito forte foi acesa. Momentaneamente fiquei cega e cobri os olhos com a mão. O cão, lá no alto, rosnou de prazer. A luz vinha de uma casa antiga, cujas janelas, que são muitas e em vários andares, dão para a escada. Uma construção típica do começo do século XX, em um bairro, hoje considerado, de classe média baixa. O pé direito bem alto, um corredor estreito e comprido, cheia de janelas laterais. Então caí em mim e percebi que a luz não vinha da casa coisa nenhuma. Que eram apenas os olhos daquela criatura que os vidros refletiam e projetavam. Me deu vontade de olhar para trás e ver se ele havia se transformado. A julgar pela sombra, sim. Mas eu não podia fazer isso.

Depois de um segundo de silêncio o cão começou a uivar. Primeiro baixo, depois foi gradativamente aumentando. Devia ser meia-noite e meia. O céu começou a ficar denso, pesado, e dali a pouco ia começar a chover. Pingos grossos começaram a cair, aqui e ali. E se tudo desse errado? Se as coisas não saíssem como eu havia imaginado?

Um rosnado muito alto veio de uma noite ancestral, antiqüíssima, que existia dentro de mim. Fiquei atordoada. Abaixei, peguei o caderno que estava na mochila, tirei de dentro dele o desenho e tentei protegê-lo da chuva colocando-o nas dobras do casaco. Um urro medonho estremeceu a escadaria. O cão, que até então estivera parado no topo, começou a descer os degraus. Vinha ao meu encontro. Eu via seu corpo refletido nas janelas e, olhando para elas, acompanhava seus movimentos. Ele estava perigosamente perto e eu não podia mais protelar o que tinha de fazer. Abaixei outra vez, acendi o isqueiro e pus fogo no papel. Apesar da chuva, as chamas subiram. Enormes. Ouvi outro urro. Mais demorado e mais próximo. O cão deu um salto no espaço, foi ficando bem maior, projetou-se pelas vidraças, cada pedaço do corpo ocupando uma delas, depois os vidros começaram a se quebrar, um a um, e os estilhaços foram caindo pelos patamares, corrimões e degraus da escada, fazendo com que os mendigos ali deitados, se levantassem depressa, assustados, e saíssem correndo.

Quando vi os cacos de vidro a meus pés, entendi que ali a coisa estava terminando. E que, talvez, eu não tivesse mais saída. Trêmula, tirei o alfinete da camiseta e cravei no desenho em chamas, bem no meio dos olhos do cão. Um barulho ensurdecedor ecoou pelo bairro inteiro. Um barulho que vinha da terra, como se ela estivesse se abrindo. Senti um hálito quente no meu pescoço e uma gota de saliva escorreu por ele. Gritei. Alto e forte. Muito alto e muito forte.

E me virei.

No alto da escadaria Tomás segurava um revólver: pam, pam, pam.

O papel terminou de queimar, a lagartixa passou rápida, abocanhou o alfinete de ouro e levou-o com ela. Fui abaixando devagar, tremendo muito e sentei em um dos degraus. Dei um tapa com força numa poça ao meu lado. A água espirrou longe.

Tomás desceu correndo e me abraçou:
— Júlia, eu estou aqui. Vamos embora senão você vai pegar uma gripe. Levantamos e começamos a subir a escada, tomando o cuidado de desviar do cão morto.

Mécia Rodrigues
* * * * *
Nasceu em São Paulo, capital. Estudou Letras e Comunicações na USP, e fez parte do grupo de teatro TECAUSP, dirigido por Kiko Jaess, então seu contemporâneo avançado. Também fez dois cursos livres de cinema, um deles na Faap e outro na extinta Escola Superior de Cinema. Foi correspondente da D.P.A. — Deustche Presse Agentur, fez o programa Opção com Walter Guerreiro, foi assistente de Fernando Faro, e diretora de arte da revista Palco+Platéia. Escreveu resenhas de livros para o Diário do Grande ABC durante 8 anos. Escreveu o catálogo da exposição do artista plástico português António Sem (Viseu, 2003) e também prefaciou seu último livro (2005). É editora e webmaster do Jornaleco, onde também tem uma coluna. Escreve para os seguintes sites: Gaveta do Autor e Anjos Caídos . Trabalha com o pintor e artista plástico Mauricio Frederico Berni há 15 anos, que é o responsável pelas ilustrações e layout do Jornaleco e também pela capa e ilustrações dos seus livros.

Mora em São Paulo, de onde jamais sairá.

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