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Breve História do Cinema - Parte III
Texto: Marcelo Lanzoni


O produtor Adolph Zuko disse: "O cinema falado nunca dará certo. É barulhento demais e impede que as pessoas durmam durante o filme". Hoje, como bem sabemos, ele estava errado.

Quando o som começou a tornar-se uma possibilidade viável para os filmes, isso em meados da década de 20, muitos produtores, diretores e atores torceram o nariz para a novidade. Por razões diferentes, eles acreditavam que a sonorização talvez não fosse um bom negócio para a indústria cinematográfica. Para Alguns, o som era apenas um modismo que brevemente seria esquecido, portanto não valeria a pena investir nessa tendência. Para outros, a novidade iria repercutir de forma nagativa no exercício da atuação. Charles Chaplin fazia parte desse último grupo.

Afirmava que a “fala” acabaria com a interpretação gestual do ator, diminuindo seu trabalho e importância. O fato é que o som trouxe consigo um leque de possibilidades inéditas. Isso, obviamente, provocou a reformulação de alguns conceitos e claro, obrigou atores habituados aos filmes mudos a se readaptarem à nova realidade.

Apesar de toda a polêmica, em 1926 a Warner Brothers produziu “Don Juan” de Alan Crosland, o primeiro filme com música e efeitos sonoros sincronizados, mas ainda sem falas. No ano seguinte a Warner surpreendeu novamente anunciando “O Cantor de Jazz” (“The Jazz Singer” – 1927), com Al Jolson (que naquela época era um dos grandes nomes da Broadway) no papel principal. Mais uma vez dirigido por Alan Crosland, o filme apresentava as mesmas técnicas sonoras de “Dom Juan”, no entanto, pela primeira vez na história do cinema, era possível ouvir o diálogo entre os atores.

A experiência foi um enorme sucesso, tanto de público quanto de crítica. Ambos aceitaram muito bem a novidade. Mesmo assim, apesar do grande número de opiniões favoráveis, a relutância de boa parcela da indústria cinematográfica em implantar por completo a sonorização nos filmes continuou durante algum tempo. De qualquer forma, os estúdios não cometeram o erro de subestimar a nova tecnologia e começaram a incorporá-la progressivamente.

Em 1929 51% das produções americanas possuíam som, contrariando as expectativas daqueles que não acreditavam no cinema falado como definitivo. A partir de 1930 outros países como Rússia, Japão, Índia e países da América do sul também passaram a sonorizar seus filmes. Não restava dúvidas, a nova tecnologia havia chegado para ficar e até os mais conservadores perceberam que o cinema mudo vivia seus últimos dias.

Charlie Chaplin lutou o quanto pode contra a sonorização de seus filmes. Foi um dos últimos a se render, mas tinha consciência de que precisaria despedir-se de uma vez por todas do cinema mudo. Ele sabia que o som era o futuro. E sabia que “Carlitos”, o vagabundo, sua mais brilhante criação, jamais seria o mesmo outra vez após falar a primeira linha de diálogo. Afinal, a famosa personagem havia sido construída e desenvolvida dentro de um universo mudo. Ela, a personagem, precisava dessa ausência sonora para brilhar através de interpretações puramente físicas, era esse o seu mundo, era onde estava seu potencial cômico e também dramático. Mudar qualquer coisa nessa estrutura para adaptar-se ao som iria descaracterizá-la, e então seria o fim. Considerando tudo isso Chaplin preparou seu adeus ao cinema mudo e o fez de forma memorável.

“O Grande Ditador”, um dos clássicos eternos do cinema, estreou em 1940 e embora o cinema falado já fosse realidade a mais de uma década, essa foi a primeira vez que Charlie Chaplin falou.

No filme, Chaplin interpreta duas personagens, o perverso (e caricato) ditador Adenoid Hynkel e o “alheio” barbeiro judeu (que no fundo é o próprio “Carlitos”) morador de uma pequena vila, transformada em gueto, onde vive na companhia de outros judeus, sofrendo as conseqüências da ditadura anti-semita de Hynkel. Enfim, A história é uma mistura de sátira e drama sobre Hitler e o regime nazista. É nesse filme que se encontram três das seqüências mais famosas do cinema. A primeira é a clássica cena da babearia onde Chaplin faz a barba de um cliente ao som da “Dança Húngara, Nº 5 de Brahms. Na segunda, Chaplin, caracterizado de ditador e sonhando com o domínio do mundo, brinca com um balão em forma de globo terrestre. A terceira e última sequência clássica de “O Grande Ditador” é o discurso no final do filme realizado pelo barbeiro (na verdade, um discurso do próprio Chaplin) sobre união, fraternidade, paz, esperança, num momento em que o mundo ainda vivia o início da II Guerra Mundial (1939 – 1945) e as pessoas nem imaginavam o horror que estava por vir. Foi nesse clima que Charlie Chaplin falou ao público mundial e entrou de vez na era do som.

Com toda sua base técnica devidamente estabelecida, solidificada e com problemas básicos solucionados, o “Sétima Arte” finalmente tornou-se sensação mundial.

Ao longo das décadas restantes do século XX o cinema evoluiu em todos os sentidos, invadindo e se firmando como nunca na mente das pessoas, tornando-se uma das indústrias mais poderosas e lucrativas do mundo. Foram produzidos milhares de filmes de todos os gêneros, para todos os gostos, vindos de todos os cantos do mundo. Alguns se tornaram obras de arte, outros inspiraram arte e outros ainda, subverteram a arte.

O cinema tranformou pessoas comuns em deuses, sonhos em realidade e realidade em fantasia. Através da tela pudemos viajar pelo tempo e espaço, descer ao fundo do mar, explorar o centro da terra, conhecer galáxias muito muito distantes, enfrentar catástrofes, gangsters, psicopatas e uma galeria infinita de vilões, pudemos enfrentar a nós mesmos. Visitamos o céu e o inferno, rimos, choramos, amamos, sentimos o ódio da injustiça e o prazer de embarcar na cruzada dos justos. Lutamos, perdemos, vencemos, refletimos e quando as luzes se acendem estamos de volta ao nosso mundo, as nossas vidas, sãos e salvos, absolutamente ilesos, mas certamente com alguma centelha de conhecimento a mais e claro, ansiosos pela próxima grande aventura.

Felizmente, o cinema vive em constante mutação. Não apenas nos aspectos técnicos, mas também na sua forma de produzir conteúdo e novas histórias. Se somarmos isso às novas possibilidades que estão surgirndo com a revolução do cinema digital, eu diria que a nós ainda não vimos nada e que a aventura está apenas começando. Que venha o próximo século.
The End

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