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O
produtor Adolph Zuko disse: "O cinema falado nunca dará
certo. É barulhento demais e impede que as pessoas
durmam durante o filme". Hoje, como bem sabemos, ele
estava errado.
Quando o som começou a tornar-se uma possibilidade
viável para os filmes, isso em meados da década
de 20, muitos produtores, diretores e atores torceram o nariz
para a novidade. Por razões diferentes, eles acreditavam
que a sonorização talvez não fosse um
bom negócio para a indústria cinematográfica.
Para Alguns, o som era apenas um modismo que brevemente seria
esquecido, portanto não valeria a pena investir nessa
tendência. Para outros, a novidade iria repercutir de
forma nagativa no exercício da atuação.
Charles Chaplin fazia parte desse último grupo.
Afirmava que a “fala” acabaria com a interpretação
gestual do ator, diminuindo seu trabalho e importância.
O fato é que o som trouxe consigo um leque de possibilidades
inéditas. Isso, obviamente, provocou a reformulação
de alguns conceitos e claro, obrigou atores habituados aos
filmes mudos a se readaptarem à nova realidade.
Apesar de toda a polêmica, em 1926 a Warner Brothers
produziu “Don Juan” de Alan Crosland, o primeiro
filme com música e efeitos sonoros sincronizados, mas
ainda sem falas. No ano seguinte a Warner surpreendeu novamente
anunciando “O Cantor de Jazz” (“The Jazz
Singer” – 1927), com Al Jolson (que naquela época
era um dos grandes nomes da Broadway) no papel principal.
Mais uma vez dirigido por Alan Crosland, o filme apresentava
as mesmas técnicas sonoras de “Dom Juan”,
no entanto, pela primeira vez na história do cinema,
era possível ouvir o diálogo entre os atores.
A experiência foi um enorme sucesso, tanto de público
quanto de crítica. Ambos aceitaram muito bem a novidade.
Mesmo assim, apesar do grande número de opiniões
favoráveis, a relutância de boa parcela da indústria
cinematográfica em implantar por completo a sonorização
nos filmes continuou durante algum tempo. De qualquer forma,
os estúdios não cometeram o erro de subestimar
a nova tecnologia e começaram a incorporá-la
progressivamente.
Em 1929 51% das produções americanas possuíam
som, contrariando as expectativas daqueles que não
acreditavam no cinema falado como definitivo. A partir de
1930 outros países como Rússia, Japão,
Índia e países da América do sul também
passaram a sonorizar seus filmes. Não restava dúvidas,
a nova tecnologia havia chegado para ficar e até os
mais conservadores perceberam que o cinema mudo vivia seus
últimos dias.
Charlie Chaplin lutou o quanto pode contra a sonorização
de seus filmes. Foi um dos últimos a se render, mas
tinha consciência de que precisaria despedir-se de uma
vez por todas do cinema mudo. Ele sabia que o som era o futuro.
E sabia que “Carlitos”, o vagabundo, sua mais
brilhante criação, jamais seria o mesmo outra
vez após falar a primeira linha de diálogo.
Afinal, a famosa personagem havia sido construída e
desenvolvida dentro de um universo mudo. Ela, a personagem,
precisava dessa ausência sonora para brilhar através
de interpretações puramente físicas,
era esse o seu mundo, era onde estava seu potencial cômico
e também dramático. Mudar qualquer coisa nessa
estrutura para adaptar-se ao som iria descaracterizá-la,
e então seria o fim. Considerando tudo isso Chaplin
preparou seu adeus ao cinema mudo e o fez de forma memorável.
“O Grande Ditador”, um dos clássicos eternos
do cinema, estreou em 1940 e embora o cinema falado já
fosse realidade a mais de uma década, essa foi a primeira
vez que Charlie Chaplin falou.
No filme, Chaplin interpreta duas personagens, o perverso
(e caricato) ditador Adenoid Hynkel e o “alheio”
barbeiro judeu (que no fundo é o próprio “Carlitos”)
morador de uma pequena vila, transformada em gueto, onde vive
na companhia de outros judeus, sofrendo as conseqüências
da ditadura anti-semita de Hynkel. Enfim, A história
é uma mistura de sátira e drama sobre Hitler
e o regime nazista. É nesse filme que se encontram
três das seqüências mais famosas do cinema.
A primeira é a clássica cena da babearia onde
Chaplin faz a barba de um cliente ao som da “Dança
Húngara, Nº 5 de Brahms. Na segunda, Chaplin,
caracterizado de ditador e sonhando com o domínio do
mundo, brinca com um balão em forma de globo terrestre.
A terceira e última sequência clássica
de “O Grande Ditador” é o discurso no final
do filme realizado pelo barbeiro (na verdade, um discurso
do próprio Chaplin) sobre união, fraternidade,
paz, esperança, num momento em que o mundo ainda vivia
o início da II Guerra Mundial (1939 – 1945) e
as pessoas nem imaginavam o horror que estava por vir. Foi
nesse clima que Charlie Chaplin falou ao público mundial
e entrou de vez na era do som.
Com toda sua base técnica devidamente estabelecida,
solidificada e com problemas básicos solucionados,
o “Sétima Arte” finalmente tornou-se sensação
mundial.
Ao longo das décadas restantes do século XX
o cinema evoluiu em todos os sentidos, invadindo e se firmando
como nunca na mente das pessoas, tornando-se uma das indústrias
mais poderosas e lucrativas do mundo. Foram produzidos milhares
de filmes de todos os gêneros, para todos os gostos,
vindos de todos os cantos do mundo. Alguns se tornaram obras
de arte, outros inspiraram arte e outros ainda, subverteram
a arte.
O cinema tranformou pessoas comuns em deuses, sonhos em realidade
e realidade em fantasia. Através da tela pudemos viajar
pelo tempo e espaço, descer ao fundo do mar, explorar
o centro da terra, conhecer galáxias muito muito distantes,
enfrentar catástrofes, gangsters, psicopatas e uma
galeria infinita de vilões, pudemos enfrentar a nós
mesmos. Visitamos o céu e o inferno, rimos, choramos,
amamos, sentimos o ódio da injustiça e o prazer
de embarcar na cruzada dos justos. Lutamos, perdemos, vencemos,
refletimos e quando as luzes se acendem estamos de volta ao
nosso mundo, as nossas vidas, sãos e salvos, absolutamente
ilesos, mas certamente com alguma centelha de conhecimento
a mais e claro, ansiosos pela próxima grande aventura.
Felizmente, o cinema vive em constante mutação.
Não apenas nos aspectos técnicos, mas também
na sua forma de produzir conteúdo e novas histórias.
Se somarmos isso às novas possibilidades que estão
surgirndo com a revolução do cinema digital,
eu diria que a nós ainda não vimos nada e que
a aventura está apenas começando. Que venha
o próximo século.
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